terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Artificial Christmas Tree

Nada foi mais importante neste natal, do que a minha árvore de natal, ou melhor, minha não do Otto. Rodei a cidade a procurar uma que satisfizesse o meu ego, meu não, quer dizer o superego do Otto, mas nenhuma me encantou me encheu os olhos, me fez criança. Tive que apelar para a internet. Ela resolve. Resolve tudo, desde a vida de solteiro à receita de macarrão a carbonara de ultima hora no domingo.

Queria uma grande, maior do que eu, que me fizesse parecer pequeno, criança eu já disse. Quando curumim o dia de montar a árvore era especial, marcante. Minha mãe abria aquela caixa cuidadosamente guardada do ano anterior e lentamente ia colocando os galhos, montando as lâmpadas, dispondo os enfeites de maneira tática e enchendo os seus pés de presentes, alguns eram caixas vazias bem embrulhadas, era bem verdade, mas não fazia diferença. Ao anoitecer, ficava em transe admirando o reflexo do piscar das luzes, os detalhes dos arranjos (não podia pegá-los) e há contar os dias para a festa de aniversário do Seu Jesus, grande inspirador do processo. Apesar de ser uma data associada ao consumo capitalista, os rituais de natais são importantes para o desenvolvimento dos pequenos mamíferos. Quem quando pequeno seguiu os rituais de colocar a meia na janela, de aguardar o dia de abertura dos presentes, de ver aquela mesa bonita e enfeitada e se possível presenciar o tio bêbado vestido de Papai Noel chegando com presentes, não esquece jamais. As lições de generosidade, celebração e união sobrevivem pelos anos até chegarem, por exemplo, neste texto démodé de natal.

Bem, mas enfim a minha árvore chegou. Procurei a maior como já disse (não é coisa de fidalgo Sigmund Freud deve explicar isto). Logo na caixa me inquietei com o seu tamanho, era pequena é calote! E tava nela grifado e explicado o porquê das taxas de crescimento de 10% ao ano: “Made in China”, fiquei preocupado é porcaria! Ao ler o vasto manual de instrução que tinha 5 figuras e 5 frases em inglês comecei a esperar o pior, lembrei com arrependimento do “inmetro”, mas na última frase deu para entender mais ou menos o que estava escrito. Que se uma lâmpada queimasse as outras permaneceriam acesas, opa! Já tá mais profissional o negócio, me animei novamente. Jantei antes, para ficar com a barriga cheia, pois imaginava ficar horas para montar aquele protótipo de gimnosperma.

Para meu espanto ao retirar da caixa a base e logo em seguida a primeira parte da folhagem e do tronco, tudo se abriu como um bote inflável de emergência e o sorriso pulou de meu rosto apaziguando as rugas da testa, Pronto! Em seguida, deve ter levado uns cinco minutos para montar a árvore que de uma pequena caixa sem vida, agora já era um pinus frondoso, exuberante, imponente, cheguei até a sentir um cheiro cítrico de suas folhas, dava gritos de júbilo: uh rru! Era uma criança novamente e agora estava calmo, relaxado, sereno, ordeiro agradecido aos chineses, a minha educação natalina e ao Seu Jesus, que todo ano promove este evento.

Ela agora tá lá, altiva. É a coisa mais importante da minha casa, ou melhor, depois do pequeno tomador de leite é claro. Agora não sei se quero um pula-pula, um balancinho ou um escorregador que não esquente a bunda. Não, não! Eu quero é mesmo é comer rabanadas....


Kung His Hsin Nien bing Chu Shen Tan!
(É feliz Natal em Chinês/mandarim)


Gilberto Granato

sábado, 20 de dezembro de 2008

Os inventores

Em uma fração de segundos, e pronto! Temos mais uma invenção neste mundo cheio de inventores, algumas ralas é bem verdade. Porém outras emblemáticas e marcantes desta concorrência desigual de Qi’s e falta do que fazer.

Vejam bem meus ocupados leitores. A lingüiça. Sim, esta arquitetônica figura, cópia de nosso interior. Um dia um cidadão qualquer, cansado de comer o lombo, a costela, as coxas, resolveu pegar as tripas de um animal (provavelmente um brunodonte). E com as próprias mãos embriagadas de mesmice, resolveu agrupar os restos que os mais frescos não comiam. E pronto. Encheu e colocou na fogueira (na época não existia fogo) e tava lá o patrimônio imaterial da culinária cultural brasileira. O abre-alas do churrasco. A lingüiça.

Depois vieram os “desproteicos”. Que cansados de lutar em vão, ou seja, de lançar suas armas e colocar os corpinhos “nus” para brigar, inventaram o bumerangue. Isto mesmo, hoje patrimônio histórico dos aborígenes australianos. Uma arma que virou brinquedo e que não pegou nas praias da América do sul. Vira e mexe é relembrado sem o estrelismo de um sabichão, mas com a categoria de um sabe-tudo.

E a cesárea? Minha nossa, imagina a primeira. A mulher lá, gritando, berrando, uivando esperando abrolhar suas sementes e derrepente, depois de doze horas de muita gritaria, aperto de barrigas e rezas não catalogadas. O cirurgião em questão pega uma navalha ali do lado da pia, bem perto do sabonete velho e corta a barriga da mãe, para ver se a criança sai por outro lugar. Pois é, deve ter sido assim o inventor da cesárea, um sábio, um verdadeiro concordato da humanidade.

Mas agora o tal do jornalista “Muntazer al-Zaidi” que em plena derradeira entrevista no Iraque. Resolveu tirar os sapatos e lançá-los sem precedentes na história mundial em direção ao carnívoro e imperialista Jorge “W” Bush (presidente reeleito dos EUA. Ato extremamente ultrajante na cultura árabe) em uma coletiva de achaque, no Iraque, merece o Nobel, o Oscar, o Latin Grammy Awards, o prêmio do bairro. É gênio, tem Qi fora do comum. É um dos maiores inventores de 2008. Fez a retrospectiva como manda a história.

Ali ba ba!.... Meu querido sapateiro de araque!



Gilberto Granato.
(Depois de historicamente ficar uma semana sem escrever).

sábado, 13 de dezembro de 2008

Cartório Antropofágico

Esta semana fui a esta instituição secular introduzida aqui pelos portugueses, colonizadores, para dar lucros vitalícios e sucessórios aos protegidos da coroa, que com o passar dos tempos, ampliaram seus tentáculos e hoje servem para várias coisas, como por exemplo, para registrar um filho.

E sem culpa no cartório foi o que fiz. Processo ainda meio patriarcal, livre de tributos e vamos assim dizer... distinto. O circo quando se é pequeno assusta: palhaços maquiados, fantasias, som alto, animais exóticos... E não é a toa que encontrei similaridades no tabelião. Ao chegar tava lá a mulher barbada, o anão “homem bala” e a mulher foca, todos com traços característicos dos antigos Tupinambás. Até ai tudo bem, dava para comer uma pipoca e rir um pouco, mas comecei a perceber que as coisas não estavam em perfeita harmonia no picadeiro.

Tinham duas meninas ainda moças, de aparências saudáveis, tônus musculares firmes e sangue quente nas veias, carne fresca mesmo melhor dizendo, fazendo sabe-se lá o que num cartório daqueles. Uma já estava visivelmente em estado de choque esperando o anão dar carimbadas e a colocar intermináveis selos em papéis e a outra ao tentar sentar na cadeira ainda da época dos portugueses, quase caiu, fazendo a mulher barbada se manifestar: “tem que ter jeitinho menina” “depois que se acostuma é uma beleza” disse lambendo os beiços. O anão logo em seguida falou alguma coisa em seus ouvidos e o tempo fechou, ela deu um grito: Quer sair daqui!!! (que se não me engano o ouvi sussurrar “as canelas estão magras!”) A menina dos selos não se movia ainda entorpecida (provavelmente algum paralisante usado antes da minha chegada) a outra da cadeira arregalou os olhos e olhou para mim como se dissesse “não saia daqui sem mim”, e eu confesso comecei a ficar receoso prestes a me enodoar, já que seria ela que me atenderia, torci para não levantar os braços e mostrar os sovacos temendo encontrar algum animal peçonhento e aguardei. Enquanto isto observava as pilhas de caixas de papelão cheias de registros, de prováveis fitas de VHS de filmes de terror, de baratas da península ibérica e se não me engano vi um dedo saindo de dentro de uma das caixas, rapidamente desviei meu olhar para o anão e os infindáveis selos (devia ser ele que certificava se a carne era boa).

A mulher foca subiu, deve ter ido esquentar a água para cozinhar a menina dos selos. A mulher barbada provavelmente vendo que eu iria atrapalhar a refeição (era hora do almoço) veio me atender. Não quis concordar muito com o nome, queria “Otton”, insistiu em argumentar se o nome da minha esposa terminava com “m” ou “n” (eterno problema) alterado emocionalmente e temeroso, nem lembrava mais, “bota do jeito que você quiser” disse. Ao ver que o nome da minha esposa não tinha o meu sobrenome, olhou para mim e deu um sorrisinho sarcástico do tipo: “Há esta hora ela está na casa do vizinho” foi neste ensejo que acho que vi um pedaço de orelha nos seus molares, desviei minha atenção agora para o capacete em minhas mãos, feliz por ter cabeça. A menina dos selos já fazia as últimas orações e a da cadeira ainda aguardava a inspeção sanitária.

Depois de minutos de aflição, pavor e agonia assinei a minha alforria e rapidamente sai daquele covil lusitano com três certezas. Era um homem vivo graças a união do cromossomo "x" com o "y". Agora o Brasil tem 189.985.137 habitantes e está explicado porque a proporção ente homens e mulheres está caindo ano a ano.

O cartório antropofágico gosta de carne feminina!

Tupi or not Tupi. This is the question.



Gilberto Granato

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Bigorna

Escritor meia boca de “O crotidiano” se infiltra em conversas de magistrados sobre um esquema de venda de sentenças e ajuda a desmascarar esquema de corrupção conhecido como "operação navalha". Nos diálogos, gravados com autorização judicial, de acordo com os investigadores, os envolvidos demonstravam que estavam desconfiados e tentavam disfarçar, usando conversas cifradas e codinomes.

(desembargador1) – Fala cardeal?
(desembargador2)- Fala “carde” meu brother!
(d1) – Como é que vão as coisas?
(d2) – Tudo na espuminha da onda!
(d1) – E Como é que estão as forças lá no TJ (tribunal de justiça)?
(d2) - Ele dobrou as forças no Tribunal, porque ele é atacado pelo papa (presidente do tribunal). Mas o padre (filho do presidente) está negociando com o outro cardeal.
(d1) – Eu já recebi um pedaço da hóstia!
(d2) – é mesmo! De quanto?
(d1) - Recebi R$ 20 mil hoje. Eles iam me dar sabe quanto? Os 43 que estavam faltando, aí me entregaram R$ 20 mil hoje e disseram que os 23 a semana que vem me entregam. Então tudo bem.
(d2) – Ah moleque! Abaixo de Deus nós é que botamos pra quebrar...
(escritor do O crotidiano entra na conversa)
(crot) – Fala aê purpurados?
(d1) – quem está falando?
(crot) – Aqui é o santo do pau oco.
(d2) – Que porra é essa?
(crot) – Isto mesmo. Estou ouvindo esta cúpula eclesiástica a mais de meia hora e gravei tudo. Agora eu quero a minha bigorna!
(d1) – Que porra é esta de bigorna?
(crot) – Sem manobras. Estorvadores divinos do dinheiro público. Eu quero a minha bigorna!
(d2) – Tudo bem, mais o que é bigorna?
(crot) – Já disse, sem mareação. Eu sou o coroinha deste esquema e quero sair fora rapidinho da igreja. Onde eu pego a minha bigorna?
(d2) – Meu irmão você já está absolvido, mas o que você quer com esta bigorna?
(crot) – Não se façam de desentendidos. Se vocês não derem um jeito de me descolarem uma “bigorninha” que seja, nos próximos segundos eu entrego a fita da gravação para o jornal “A Gazeta” agora mesmo. Como é que é?
(d1) – Putz grila!
(d2) – Meu Deus do céu!
(crot) – Querem me fazer de pascácio não é? Eu trabalhando duro, com filho pequeno pra criar, com a grama do jardim para cortar, com um natal para desenrolar e vocês me fazendo de pacóvio? Vocês vão é amargar a fúria dos capixabas. Em nome do Espírito Santo seus canalhas corruptos!
- pi, pi, pi, pi, pi, pi, pi, pi, pi, piiiiiiiiiiiiiii...


Arawãkanto'i Tapirapé (Livre de mais um tumor, o Espirito Santo pode continuar avançando. E só depende de nós, capixabas, para que isso ocorra de fato)

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Bicho estranho

É noite. Chego cansado do primeiro trabalho. Minha esposa esta cansada do trabalho de Mãe. Tomamos banho e sentamos em frente à TV para conversarmos sobre o dia e admirarmos o nosso pequeno mamar. Hoje entendo bem a expressão “Quem não chora não mama”. Está tudo perfeito, um ventinho fresco, os pés para o alto, de pijamas, do jeito que o corpo gosta. É quando entra um bicho estranho pela varanda, parecido com o barbeiro, só que anatomicamente mais maquiavélico, com pernas longas, corpo com pintas laranjadas, antenas compridas, corpo delgado e com uma força incomum aos voltívolos insetos, começou a dar cabeçadas hostis no teto. Olho minha esposa de rabo de olho e sua expressão de apreensão é evidente:

- Esse bicho pica!
- Não, é só bicho de luz.
- Ele pica!
- Não, não faz nada não.
- Uma vez eu tava no banheiro e ele me picou, e doeu!

(pausa para reflexão)

Após muitos sobrevôos kamikazes ele finalmente aterrizou entre as persianas e ficou quieto. (Alguns minutos se passam) Minha consorte não para de olhar para a cortina, acho que não vai ter jeito. Capturar um animal daquele pedigree àquela hora da noite e nas alturas! Não estava no cronograma de repouso de um dia de batente. Levanto, pego o tapete da varanda que estava no chão e planejo um golpe preciso, não poderia errar sob o risco de ele investir novos rasantes suicidas mais próximos da minha família. Concentrei, mirei, respirei fundo e com um golpe decisivo ele veio ao chão, peguei-o pelas antenas e o coloquei no fundo do vaso de planta. Agora este desavisado invasor vai virar adubo.

Quer saber?

Ecologia também tem limites!



Gilberto Granato.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Vanellus Chilensis

Mais uma pelada;

Não aquela sem roupas, que você meu dominical leitor do gênero masculino já viu por aí, mas aquela cheia de homens recitando palavrões intrínsecos para outros machos da mesma espécie. Pois depois de muitos dias de índice pluviométrico alto e campo alagado. Hoje deu terra firme com bosquejos de sol. E com muita dificuldade dezoito homens bem aventurados se propuseram a correr atrás de uma bola já um pouco maltratada é bem verdade por eles próprios e compartilhar de horas de terapia coletiva.

Mas antes, ali na cabeça da área, na meia direita, bem próximo da entrada da meia lua, tinha um ovo de quero-quero. Com casca pintada com manchas escuras para favorecer a sua camuflagem em meio à grama alta. Desta ave típica da América do sul, que tem seu nome da onomatopéia de seu canto, também conhecida como: tétéu, téu-téu, terém-terém ou espanta boiada. Ave do tamanho de uma perdiz que caracteriza-se pelo colorido geral cinza-claro e por não ter dimorfismo sexual, ou seja, todos são iguais anatomicamente falando é claro. O macho é agressivo e ataca qualquer criatura que ofereça perigo, incluindo seres humanos, ou melhor incluindo um intruso com adiposidades acumuladas de mais de um mês sem correr como eu.

Dias de campo vazio, calmo para a família de quero-quero. E agora eu estava lá para atrapalhar o seu fim de semana, o seu lazer, a sua boa relação com a esposa. É lógico, se não ela não tinha colocado um ovo. Mas se o ovo for de outro? Bem deixa pra lá, era uma família unida e o macho deixou o dimorfismo de lado e veio logo em minha direção, querendo briga, me nocautear, defender a sua reforma agrária. E eu um homem de paz tentei acalmá-lo, mas ele não quis conversa. Então para fugir do confronto peguei o seu único ovo (as famílias de quero-quero também estão fazendo planejamento familiar) e o coloquei lá no fim do campo embaixo dos desconhecidos pés de açai pelos homens daqui.

Bola vai e bola vem. E o nosso camarada insistia em ficar nas remediações da nossa defesa, mas nem com a sua valorosa ajuda conseguimos vencer, perdemos de goleada. E foi no apito final do desanimado juiz, que me sensibizei com a persistência de nosso companheiro e respeitosamente coloquei de volta o seu filho único no lugar, bem naquela covinha da grama. Ao ir embora ele ou ela (coisas do dimorfismo sexual) já estava lá em cima, deitadinha, tranquila, provavelmente pedindo por mais chuva, por mais atenção humana ou por mais campos de futebol.

Simpatizei pelos quero-quero. Se por acaso você ver algum, manda lembranças minhas. Fala para ele que tem lugar na meia direita aqui no meu time tá!




Gilberto Granato

sábado, 6 de dezembro de 2008

Os verbos

Se eu canto no presente. É porque estou movido pela alegria.
Agora se eu vendia no pretérito imperfeito. É porque de nada mais me valia.
Parti nesta escrita do pretérito perfeito simples. Sem rumo pra ver até aonde eu ia.

Pois tenho cantado no pretérito perfeito composto. Sempre que o vejo.
E não vendera no pretérito mais que perfeito. É apenas um lampejo para minha dissonante escrita.
Ao perceber já era tarde e havia partido no pretérito mais que perfeito composto. Neste sentimento de alacridade e português mal resolvido.

Cantarei no futuro do presente simples. Pois só consigo pensar em um dia venturoso.
Haverei vendido no futuro do presente composto. Todo o meu desgosto.
E assim partiria no futuro do pretérito simples. Deixando para trás um lindo colosso.

Teria cantado mais no futuro do pretérito composto. Se no modo subjuntivo tentasse um esboço.
Mas a sensatez do presente. Faz com que eu me toque e pare de te incomodar meu nobre leitor generoso.
Que você tenha um futuro simples. Cheio de alegrias assim como eu.
E não se deixe levar pelo modo imperativo. Afirmativo!
E saibas que particípio do seu passado
E espero te encontrar num gerúndio próximo.


Boa conjugação!



Gilberto Granato
(inspirado no livro de verbos da minha esposa de 1987)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Biquíni branco

“Ela entrou de biquíni branco, soltou a blusinha na areia, jogou um sorriso pra trás, me deixou com a cabeça cheia (de idéia)” (Zero quatro)

Fred e Larissa moravam no mesmo bairro a uma quadra da praia. Só ficavam separados por ruas. Ele como de costume freqüentava a sua. Ela como imposição dos pais a dela. Ou seja, não compartilhavam da mesma turma de amigos. Eram adolescentes entrando na fase adulta. Estudavam na mesma escola do bairro, mas ele era da turma “A” e ela da “B” que segundo os colegas da escola “era a mais legal!”.Só que de um tempo para cá as coisas começaram a mudar.

Nos fins de semanas de sol. A diversão dos dois era ir à praia. E era lá que as ruas se encontravam, os algarismos das turmas formavam uma sílaba e alguns púberes procuravam seus géns . As meninas a tomar sol e a exibir o último lançamento em protetor solar e os rapazes a jogar bola na maré baixa ou a dar piruetas no ar, assim como os pavões querendo atrair as fêmeas exibindo suas penas coloridas da cauda.

Fred já a uns dois verões, fitava Larissa e seu biquíni branco. Depois de exibir suas habilidades circenses ficava sentado durante horas olhando os cabelos, analisando a maneira de falar, de escolher o picolé, de mergulhar por debaixo das ondas, de arrumar a canga para uma caminhada, até mesmo o seu jeito de abrir a bolsa de praia. O biquíni? Era um biquíni destes... destes... Sem coloração mesmo meu caro leitor, com lacinhos na cintura e com triângulos isósceles tapando as pomas aturadas de seu auge hormonal. Qualquer outro biquíni branco que surgisse na praia, ficava ofuscado perante o de Larissa, tanto que as meninas nem ousavam cogitar a possibilidade de valer-se de outro, mesmo que de modelo diferente, no máximo, um com detalhes em branco. Parecia que tinha sido feito sob medida, por estes estilistas que usam sua clientela como laboratório. Tinha estilo, sensualidade e um raro frescor! Foi demais, Fred já estava apaixonado por Larissa há muito tempo.

Em uma destas festas que reuniam os dois lados da fração, realizada no prédio que dava para ambas as ruas. Fred foi decidido a abrir o seu coração, de gaguejar os seus pontos de vista e de quem sabe, conseguir arrancar um beijo da sua musa de areia e sal. Para sua surpresa, durante sua chegada a festa, aquelas amigas que ficam doidas para ver o circo pegar fogo, já davam deixas e demonstrações claras de que Larissa simpatizava com sua maneira tímida de ser (na verdade um amigo de Fred já tinha colocado lenha na fogueira, ou melhor, vento na poeira, ao contar para uma das amigas dela que desde a conclusão do primeiro grau se inclinava por ela). Ele não acreditou, quis dar meia volta, sua boca secou, as sobrancelhas empinaram, mas foi corajoso, permaneceu na festa e decidiu que dali pra frente seria tudo ou nada, de preferência tudo.

Lá pro final da festança, regada a muita batidinha de maracujá. Foram chegando perto um do outro e sem dizerem uma palavra se beijaram sob os gritos afoitos dos incentivadores. Andaram de mãos dadas, fizeram cafunés, Larissa chegou a deitar no seu colo enquanto trocavam juras de amor, foram os últimos a sair da festa. Marcaram de se encontrarem no outro dia na praia, só que agora ficariam juntos, no mesmo grupo. Ela passaria protetor solar nele e vice versa, tomariam água de coco e ficariam na mesma canga, tudo o que Fred sempre sonhou.

No outro dia pela manhã. Fred já estava a postos a beira-mar ainda sem ventos e nada de Larissa chegar, chegou a pensar bobagens, mas desviou sua atenção para uma partida de vôlei de praia. Quarenta e quatro minutos depois contados no relógio ela chegou e junto o seu novo companheiro, um biquíni azul de cortininha e alça dupla, antecipando a tendência do verão, com nem se quer um detalhe em branco. Fred ainda surpreso com a novidade engoliu a seco a maresia e não demonstrou qualquer desconforto. Permaneceram o dia todo juntos e felizes sem que ele desgrudasse os olhos do novo biquíni azul.

No outro fim de semana. Fred não foi visto mais na praia. Seus amigos disseram que iria frequentar aulas de Karatê durante todo o verão.



Gilberto Granato

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Plantão (O meu anjo nasceu)

“Logo de início ele deixou tudo claro. No primeiro ultra-som a primeira imagem que vi foi um sinal de positivo com os dedos e desde àquela hora tive certeza que seria tudo normal”.

No domingo passado lá pela hora da virada para a segunda Fui atingido por três sentimentos. Primeiro entrei na armadilha de ler uma crônica de jornal (poucas são boas) e as linhas avermelhadas de ênfase da enlourada e sorridente cronista entraram no meu consciente a ferro e fogo: “Ser refém dos pensamentos no escuro e refugiado embaixo do edredom é bem pior que assombração”. A partir daí não teve uma só noite que eu não ficasse dominado pelo pensamento.

O segundo ato. Foi a intermite chuva que atingiu o solo capixaba e que não deu trégua, pois trégua é uma palavra que as forças da natureza não entendem muito bem. O rio castelo, passa a vinte metros de meu primeiro trabalho e pelas notícias insalivadas de tensão dos jornalistas, tinha certeza que desta vez o rio iria fazer uma visita ao meu consultório. Não teve um só dia que não media os centímetros no muro do leito do rio, pedia a Deus e me preparava para ser refém de um seqüestro longo.

O fim da trilogia, foi movido pelo sentimento especial de estar prestes ao nascimento da sua extensão, da coisa mais importante da vida: a vida! Depois de 9e90 (a gestação dura nove meses e noventa dias no último mês). Eu olhava a barriga da xibé, olhava o rio subindo e descendo e a noite era fagocitado pelas lembranças (facção terrorista especializada em indivíduos preocupados). Quem iria me libertar primeiro?

Pois hoje de manhã, minha corajosa esposa mostrou como se deve levantar um homem na segunda-feira: Gil, a bolsa estourou!!! Nunca foi tão rápido chegar ao banheiro para o banho. Avisa a família, passa na banca para comprar o jornal que lhe será entregue daqui quinze anos, dilata 1 cm, depois 3, você conversa com os médicos estórias de esquinas, 5 cm, 7 cm, até que todos se concentram na força final. A Mãe se empenha um pouco mais e pronto, lá está ele: De parto normal, humanizado, as11: 59 da manhã, pesando 4 kilos e 15 gramas e com 53 centímetros, chora, depois fica na incubadora tranqüilo pensando igual ao pai, toma seu banho e já começa a mamar nos peitos da aguerrida Mãe.

Meu filho, daqui pra frente é tudo mais fácil. É só dar setas para mudar de direção, ser educado, gentil, ler, deixar a música te pegar, praticar esportes, viajar, namorar quando chegar a hora, proteger a natureza e fazer por onde, honrar os seus compromissos, ter amigos fiéis (serão poucos), respeitar os mais velhos e os familiares, pois eles é que estarão do seu lado sempre, levantar a tampa da privada ao fazer xixi e ter cuidado com os demagogos. E se for preciso meu filho, não fique com vergonha de levantar a mão e perguntar quando não entender e de dar as suas opiniões...

Otto: Do alemão. Significa riqueza, propriedade. Poucos nomes carregam tanta energia positiva como esse. Predestinado ao sucesso, quem assim se chama, só precisa de determinação para alcançar a vitória.

O mundo é todo seu meu filho!!!

E saiba desde já que Papai e Mamãe te amam muito.....

Ah! E a chuva? Acabou meu caro leitor. Depois de muitas nuvens, hoje é o dia mais ensolarado da minha vida!!!

Com amor,

Papai.



Gilberto Granato, agora é Pai.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

A carta

Chegou uma carta na minha casa.

Fiquei desconfiado de início. Hoje ninguém manda mais carta. A não ser os cobradores de água, luz e os bajuladores sazonais (conselhos profissionais, políticos em véspera de eleição, lojas...) Então pensei: “O que tenho a temer?”. Abri o envelope cheio de coragem. De cor rústica e aparência antiga, sem selos (adoro os selos) sem endereço e remetente, não aparentava ser nenhum trote. Provavelmente quem pôs, fez isto pessoalmente, ou mandou um pombo correio aposentado.

Abri a carta e a passo para vocês na integra a missiva contida nela meus preocupados e interessados leitores:



Estimado Gil,

Este fim de semana foi muito difícil e ao mesmo tempo prazeroso para mim. Ao assistir uma matéria na TV aberta no domingo de manhã, lembrei-me inspiradamente, instintivamente e instantaneamente de você meu querido amigo. (Desculpe-me a insistência nos “ins”, mas foi o que jaziu ao meu limitado linguajar agora).

Do tempo em que andávamos juntos e nós dois éramos praticamente um só corpo, inseparáveis, indissociáveis, insolúveis (lá vem meu linguajar necessitado novamente), praticamente irmãos, irmãos de vida. Lembro dos seus cabelos ainda meio loiros, sua aparência jovem sem espinhas, das suas bermudas de tactel, das camisas regatas, dos chinelos alcochoados, do RG novinho em folha, dos poucos pêlos, das partidas de vôlei improvisadas nos postes da rua que hoje praticamente seriam impossíveis, lembra “a rua”? Era assim que chamávamos o nosso local de estripulias juvenis. Das peladas de travinha, das partidas de beti (taco), dos campeonatos de futebol de botão, da coleção de bolinhas de gude, de selos, basquete de rua, polícia e ladrão, surf na praia no segundo píer em época de ressaca e depois subir nos pés de cocos para matar a sede, de ficar olhando as mulheres nuas nos altos dos edifícios, os primeiros porres, as primeiras namoradas, o seu primeiro beijo, lembra? Todos ficaram a assistir lá na esquina daquela casa que tinha um gasto fila brasileiro bravo. E as festinhas americanas? Embaladas a passos ensaiados e a tênis de cano alto. Das Mães denodadas dizendo que já era tarde e que era hora de ir dormir. Dos portões dos prédios abertos, não tinha muito problema, agente até brincava nos matagais e como tinha matagal, não faltavam mamonas para as estilingadas noturnas nos transeuntes desavisados, tudo isto embalado pelos primeiros discos rock pesado de primeira, lembra?

Mas bom mesmo era quando saíamos juntos a rodar pela cidade. Onde tinha asfalto é claro, lá estávamos nós! Juntos com o restante da turma, não tínhamos limites, que fôlego, cruzávamos bairros, municípios, fronteiras... Aonde as ruas e praças perpetravam curvas inspiradas em Niemeyer, era prato cheio. Pura emoção! Uma nova construção era sempre bem vinda, pois trazia matéria prima gratuita para nossos projetos arquitetônicos, que envolviam a todos da rua. Até os mais velhos, ficavam a dar palpites e a ajudar nos cálculos. Serrote, pregos e fita métrica e dias depois a nossa “obra” estava pronta para a deliciarmos, para ficarmos mais pertos do céu, transpormos os nossos limites, nossas energias e aumentarmos os números de cicatrizes e hematomas pelo corpo. As meninas ficavam a olhar e a fazer comentários nos ouvidos das outras. Quando o que fazíamos era bonito, todos gritavam: YEAH! Coisa de americano eu sei, mas foram eles que inventaram não é? Sei que você ainda tem fotos desta época e as guarda com carinho. Soube até que já “velho” ainda cogitou utilizá-lo como forma de transporte nas ruas onduladas, abafadas e úmidas, porém asfaltadas da floresta. Éh... Este espírito repleto de adjetivos e que não volta mais. Foi o que sempre nos regiu meu caro amigo.

E hoje na Tv ao ver esta tal da “Megarampa” que inventaram não tive como não lembrar de você. Fiquei meganostalgiado!

Um grande abraço.

Do eterno amigo que nunca te esqueceu.

Subscrevo-me

Seu skate de rodinhas ‘moska” rosas, rolamentos NSK, truck simis e shape Lifestyle “Beto or die” do final da década de oitenta.



Gilberto Granato

domingo, 23 de novembro de 2008

No meio do calçadão de Copacabana

No meio do calçadão tinha um homem
Tinha um homem no meio do calçadão
Tinha um homem de óculos
No meio do calçadão tinha um homem

Nunca me esquecerei deste acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fadigadas
Nunca me esquecerei que no meio do calçadão
Tinha um homem
Tinha um homem de óculos no meio do calçadão

No meio do calçadão tinha um ladrão!
Que pela sexta vez furtou os óculos de nosso poeta
Peguem este ladrão de calçadão

No meio do calçadão tinha um ladrão
Tinha um ladrão no meio do calçadão
Tinha um ladrão



Gilberto Granato
(homenagem a Carlos Durmmond de Andrade e seu poema “No meio do caminho” Que pela sexta vez teve seus óculos de sua estátua de bronze roubados no calçadão de Copacabana)

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

A astronauta

Vocês viram?

Na estação espacial internacional, uma astronauta não identificada pelos meios de comunicação, cometeu um erro típico do sexo não masculino. Ao destravar um painel solar, espirrou graxa, vê se pode! Na sua roupinha branca de “Astrogirl” espacial e a bolsa cheia de ferramentas siderais e mais batom, presilha de cabelo e remédios de dor de cabeça, foram para o ar, ou melhor, para o espaço mesmo. A sorte é que essa turma que gosta de ir a lua, é bem prevenida e tinham outra bolsa mais enxuta para repor. Ao analisar este episódio comecei a pensar no verbo perder.

Fui ao dicionário. Não aquele de papel, grosso, compacto, maciço, que era feito para atender a estudantes, professores e aos consulentes em geral da língua portuguesa falada hoje no Brasil. Ao qual sempre necessitei da ajuda da minha Mãe (catálogo telefônico ainda careço) para me ajudar a encontrar palavras. Agora fui ao da internet. É rápido, te conjuga o verbo se você quiser, imprime, envia para um amigo e te da ajuda sem cobrar depois. Hoje em dia, mais moderno, também atende a pessoas com insônia, curiosos, mulheres providas de cabelo cor loiro médio, dourado, claro, mel, servidores públicos, astronautas e cronistas de meia tigela...

E lá, o significado de "perder" traduzido para a nossa protagonista é:

Ser privado de coisa que possuía, (é difícil recuperar as coisas no espaço!)
Deixar de ter, (a bolsa)
De gozar, (será que tinha objeto vibratório lá dentro?)
Não aproveitar, (agora quem manda na estação são os homens e não se fala mais no assunto)
Deixar fugir, (o futuro na carreira espacial)
Dar cabo de, (?)
Dissipar, (o dinheiro investido nas ferramentas)
Destruir, (o churrasco da família no retorno da nave)
Causar a ruína de, (ela mesma! Oras!)
Conduzir a perdição, (o chefe da missão)
Corromper, (a harmonia da equipe)
Desgraçar, (a futura ida de mulheres ao espaço)
Desmerecer, (promoção e aumento de salário)
Descair no conceito, (dos escritores que fingem ser machistas)
Sofrer dano, (de astronautas fundamentalistas)
Quebra ou diminuição de, (sua estrutura óssea uai! não está no espaço? Oras!)
Esquecer-se de, (pedir desculpas em público)
Deixar de observar, (os homens fazendo o conserto)
De seguir, (dando palpites)
De prestar atenção a, (aula que é dada aos astronautas antes de decolarem poxa!)
Empregar sem proveito (o tempo, o esforço etc;). (isto mesmo etc... etc... e reticências...)

Até aí minha cara astronauta não identificada, tudo bem. Foi só um conselho do dicionário virtual, ou melhor, espacial neste caso. Mas se por acaso um destes objetos também não identificados vierem a cair em cima de minha cabeça ou nos meus pés de alface no quintal, aí não vai ter colher de chá não! Eu não irei mais ao prático pai-dos-burros on line. Vou é procurar o meu advogado espacial on terra!

Te cuida!



Gilberto Granato.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Mister Antônio

Antônio e Laura. Eram casados a mais de vinte e cinco anos. No ano passado celebraram suas bodas de prata em uma viagem inesquecível a Santa Lúcia no mar do caribe. Ele engenheiro de uma grande multinacional, já prestes a se aposentar. Ela arquiteta que executa projetos indie para celebridades de televisão. Tinham dois filhos estudando em faculdades longe dos pais, se amavam e levavam uma vida confortável e honesta.

Certo dia. Laura comentou que uma grande amiga Núbia, fiel companheira da época em que faziam o ensino superior em Fortaleza ligou, pois estava voltando para o Brasil no próximo fim de semana, depois de passar cinco anos morando em Glastonbury uma pequena cidade em Somerset, Inglaterra, situada a 50km (31 milhas) ao sul de Bristol. Era inverno no Brasil, então resolveram fazer uma bela recepção para a amiga, que Antônio insistia, mas não conseguia lembrar de sua imagem ou semelhança.

Durante a semana, até o dia da chegada. Laura revia fotos, mandava emails, planejava uma bela recepção de comida japonesa, lembrava das boas risadas que dava com a amiga, tomava o elichir da juventude diáriamente e Antônio indiferentemente apenas lia seu jornal sempre a noite, antes de colocar comida para os pássaros e dormir.

No sábado pela manhã. Tomaram banho, aprontaram-se e foram para o aeroporto, onde tomariam o café da manhã. No trajeto, Laura recebeu um telefonema de sua amiga, de que o vôo atrasaria em uma hora. Eles já empolgados e contagiados com a chegada, resolveram aproveitar o tempo e comprar flores para a recepção. Os pais de Núbia moravam em Córdoba na argentina, há quatro anos e ela já tinha se separado do marido antes de ir, tinha um filho, que morava com o pai em Lucas do Rio Verde, Mato Grosso, para onde iria na segunda-feira, para em seguida ir encontrar seus pais.

Depois de mais um atraso de mais uma hora. O avião chegou e foi aquele saudoso encontro. As duas não paravam de se abraçar e de passar as mãos nos cabelos da outra, como se fosse o encontro de duas espécies diferentes, porém amistosas. Antônio apenas sorria de canto de boca e instantaneamente se prontificou para levar as malas.

Já em casa, tinha um sushi-man que já estava mandando ver. Laura em cima da hora viu que faltariam mais alguns condimentos e foi a mercearia do bairro comprar. Antônio e Núbia ficaram a conversar sobre o frio, a política e sobre o Brasil, enquanto tomavam caipirinhas de saquê.

Quinze minutos se passaram e ao regressar, enquanto colocava a chave na fechadura. Laura teve a nítida impressão de que Antônio conversava em inglês com Núbia. Ao entrar, os dois interromperam o assunto e Núbia prontamente trouxe mais uma dose para Laura. Ela achou que era coisa de sua cabeça e foi matar a vontade de comer sushis.

Mais tarde já com os estômagos orientalizados e a mente ocidentalizada, enquanto Laura ainda perguntava sobre a experiência da amiga em outro país. Núbia proferiu:

- Mas que inglês ótimo que seu marido fala? Poderia muito bem se passar por um bretão.
- O quê? Antônio nunca falou uma palavra em inglês em toda sua vida! Ele devia estar brincando ou já bêbado.
- O que é isto Laura! Vai dizer que você não sabia que seu marido fala inglês?
- Não é que não sei. Ele não sabe, assim como eu!
- Então tá. Deixa pra lá...

As duas ficaram mudas. Antônio já roncava no quarto e a conversa foi diminuindo até que Núbia disse que pela manhã, já estaria de partida. Laura sem hesitar concordou. Ao alvorecer, Núbia partiu de táxi e apenas deram um abraço nada caloroso. Não combinaram nenhum outro encontro e não trocaram telefones. Foi a porta fechar para Laura começar a lançar a sua desconfiança:

- Antônio! Desde quando você sabe falar inglês?
- Mas eu não sei querida! Você não sabe disso?
- Eu ouvi você conversando com a Núbia e ela me confirmou isto ontem.
- O quê? Estavamos a falar sobre a vida na Inglaterra, mas palavras em inglês? Onde já se viu, não sei nem dizer obrigado em outra língua?

Laura não se conteve e a partir deste dia investigou suas coisas, revirou suas cuecas, perguntou aos amigos de empresa, parentes, chegou a procurar seu analista de um ano atrás, foi a escola em que estudou para analisar a grade escolar, revirou, futricou e infernizou a vida de Antônio atrás de uma informação do misterioso conhecimento da bendita língua inglesa.

Daquele fatídico dia em diante, não houve um só dia em que Laura não questionasse o pobre marido. Só disse que voltaria a colocar o café da manhã na mesa, a devolver suas chuteiras e a assitir juntos aos documentários de domingo na TV, quando dissesse a verdade. E a verdade era em outra língua. Antônio ficou mudo. Triste e mudo.

Depois de três meses de tortura e angústia. Ele escreveu um bilhete e deixou em cima da mesa da sala, apenas se despediu dos filhos e partiu. Só sei que no fim da carta estava escrito o seguinte:

Querida Laura. Aposentei-me e fui para Inglaterra aprender inglês, quando estiver sabendo tudo volto. Não me procure.

De quem sempre te amou.

Antônio.



Gilberto Granato

sábado, 15 de novembro de 2008

Festa dos Machado

Opa! Dia lindo! Vou à festa da família aí do título. A avó da minha esposa é dessa família, meu companheiro de América do sul Norival também. Então vamos, vai ter os caras que vão repudiar! Você não é machado? O que me importa, que me importa o seu preconceito que mimporta!.... Como diria Renato Texeira... E fui....

Cheguei e prontamente fui ao banheiro. Mijei e respinguei logo de cara na bermuda. Não por vontade própria, mas por falta de arquitetura na inclinação do mijatório. Cerveja a um real, beleza! Estavam lá os tataravôs, bisavós, avós, de uma família baseada no trabalho duro das lavouras de café. Passou um tempo e fui ao sanitário novamente. Ao desentortar a torneira para educadamente lavar as mãos, a agua do ralo da pia caia no meu pé! E tomei uma bela respingada na canela. Voltei e conheci vários membros deste importante clã. Os mais velhos demonstravam suas alegrias e os mais novos suas precocinomias. Até que chegou a hora de voltar ao WC. Desta vez, estrategicamente, fui a uma cabine reservada, destas típicas daqueles que querem fazer o 2, ou têm vergonha de mostrar o pinto (desculpa o palavrear coloquial, mas não tive outro vocabulário). Mas deu na mesma. Alaguei o tênis. E cidadão como sou, não tive coragem de dar a descarga! Fui embora com os membros inferiores novamente encharcados de uréia.

Mais algumas rodadas. Cerveja a um real? Todos são ricos, não faltam gentilezas... Antropologia vai e vem e tenho que ir ao bathroom novamente. E agora aonde ir? Novamente na cabine do “Ele”. O que esperar? Nada mais do que partículas de um composto orgânico cristalino e mais ou menos incolor de fórmula; CO(NH2)2, com um ponto de fusão de 132,7 °C. Tóxica, a uréia forma-se principalmente no fígado, sendo filtrada pelos rins e eliminada na urina ou pelo suor, onde é encontrada abundantemente; constitui o principal produto terminal do metabolismo protéico no ser humano e nos demais mamíferos.

Quer saber?

Vou pedir a saideira e tomar um belo banho de bucha lá no banheirinho da minha casinha...

Tchau pra vocês!

Seus mijões...



Gilberto Granato

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Pensando na velhice

Hoje, ou melhor, há umas semanas atrás. Tive tempo de matutar a velhice, sim aquela fase, que vem depois da envelhescência que além do sufixo é muito parecida com a adolescência, pois segundo o Mario Prata, é a idade entre os 55 e 70 anos, que é uma preparação para a velhice. Nesta fase os futuros avelhantados se comportam igual aos jovens: Os dois gostam de meninas de vinte anos, ambos são irritadiços, se enervam com pouco. Acham que já sabem de tudo e não querem palpites nas suas vidas. Os dois acabam sentando na poltrona do dentista e no divã do analista, ambos bebem escondidos, adoram usar tênis e por aí vai...

Fui encarar a previdência social e ver como andam as coisas. Cheguei cedo e já peguei uma mini-fila na entrada, até aí tudo bem, tinha uma gestante e uma mãe de um bebê de quatro meses, aproveitei e aumentei os dados da minha rica enquete: o parto da senhora foi normal ou cesária? Ao entrar, não tem mais fila, tem gente que agenda o atendimento, mas tem que esperar igual a consulta de médico de SUS e final de campeonato. Entrei e todos estavam mudos, as cadeiras cheias, com apenas uma vaga, educadamente me apoiei na parede branca e comecei a revezar o número quatro, não entendeu? Não pedem para fazer o quatro quando se está bêbado? Para esperar também, até que a parte anterior da coxa começa a doer, depois a posterior e depois vem aquele sopro profundo de descontentamento lá das paredes semi-virgens do pulmão. Sentar na vaga? Tinha dois velinhos que estavam de pé? (e olha que todos ali querem é mesmo é se encostar!), mas não queriam sentar, são mais educados do que eu então pensei, não, deve ser as hemorróidas da idade, repensei. Ali dentro só tinha em sua maioria seres idosos, deficientes de muleta, doentes crônicos, mães com crianças de colo, eu e uma jovem perdida, se eu fosse dar a vez aos mais velhos, como diz a lei da vida, nunca iria sentar, me sentei.

Comecei a questionar a futura comedora de minhocas, encostante jovem do governo ao meu lado. Tinha chego uma hora na minha frente e sua senha estava muito longe, pensei, o bicho vai pegar! Tinha senhora que a todo o momento tirava o santo do bolso, para avançar na fila? Doença? Tinha senhoril de chapéu panamá, chapéu de palha, de bigode, de bigodão, nos cartazes nas paredes só desenhos de personagens senis, achei-me um estranho no ninho, mas com a boca bem aberta a espera das minhas minhocas da velhice. Alguns senhores olhavam para mim e eu lia os seus pensamentos: Devia ter vindo aqui na época deste jovem? Tinha um senhor que ficou por muito tempo em pé, impressionante sua resistência, mas não quero ser assim, quando a idade me pesar, quero sentar, quero que me dêem o lugar, do ônibus, do cinema, da fila da vacina, do tira gosto grátis do supermercado, quando chegar lá quero boa vida, não vem com essa de “quando a pessoa envelhece não consegue mais ficar sem trabalhar” tem muita coisa melhor para se fazer na vida, que não é o primeiro trabalho, porisso estou aguardando calmamente chamarem o meu número, para eu ver quanto tempo tenho que ralar neste trabalho ainda, para me dar mais alento, mais um escopo, mais minhocas para meu encosto.

Não me contive claro. E puxei um papo com o companheiro de mau hálito do meu lado, a da frente nitidamente de fora na mesma hora, se adentrou no assunto e a falação se deu início, quando percebi, todos ao redor já estavam a trocar conversinhas. A mesma moça de cabelo esquisito começou a falar de nome de carro, da vida alheia e a falar de mais, resolvi desviar a minha atenção e continuar no meu silêncio, apenas olhando o visor das senhas e pensando nas minhocas.

Fui atendido. Sai com minha fome de adulto jovem ainda, sem braço enfaixado ou dor nas costas, apenas nos glúteos (ainda sem espinhas) de ficar sentado, hígido. Ao chegar em casa tomo aquela dura da minha amada passara mãe: esqueceu aquela minhoca, não perguntou aquilo?... e blá, blá, blá...

Porisso, hoje bem cedinho tive que voltar lá de novo. Um pouco mais velho é lógico, mas ainda sem muletas. Fui com tudo bem escritinho, para não correr o risco de um ensaio sobre a cegueira acontecer, foi rápido, os funcionários já nos conhecem, “a grávida e seu marido esquecido”. Só deu tempo mesmo, de ouvir a queixa de mais um senhor enfermo: Éh, o negócio está feio pro meu lado! Alegando um problema ainda não bem identificado, segundo eu bem entendi.

Agora! Meu caro leitor em processo de envelhecimento!... Ih! Pera aí? Olha minha esposa agora me gritando: Gil, quando você subir traz o remedinho que tá do lado do filtro por favor! Coisa de velho não é?

Acho que vou me olhar no espelho...

Até...



Gilberto Granato

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Salve o Corinthians

Há um ano atrás, depois do fatídico um a um com o habitué grêmio, pensei em desistir, abandonar o futebol, chutar um cachorro, não falar mais sobre o assunto, fiquei no fundo do poço, no xilindró, na vala, na trincheira da vergonha...

Mas ergui a cabeça, pois o mundo dá voltas (mas não tantas como o Bahia futebol clube está dando) o tempo passou, não teve tapetão que nem outros times já desenrolaram, mas teve paixão, teve garra, bom futebol e canto de Rei no final... Eu voltei, agora pra ficar, pois aqui, aqui é meu lugar... Há uma semana atrás tínhamos retornando para a série hígida do futebol, série sã, onde não têm doentes, apenas uns gripados com o nariz escorrendo, com tendências pneumonicas nas quatro últimas colocações, a séria A - dose única.

E neste fim de semana fomos campeões antecipados, com quatro rodadas de antecedência, o que dizer? Só posso recomendar o remedinho. Uma boa dose de 365 miligramas de segunda divisão, para o seu time que anda anêmico, com calos, arritmias e com problemas de fôlego. É um ótimo medicamento, leva o time a lugares onde nunca foi, faz mais torcida muscular, as doses são administradas em dias diferentes, não tem outros doentes rivais, organiza a flora intestinal e melhora a aparência física. Mas é bom lembrar, ele só deve ser usado por no máximo um ano, se não, pode levar a efeitos colaterais desagradáveis como: dependência de segunda ordem, diminuição da pressão, queda dos cabelos, vista embaçada, fadiga, astenia, náuseas, vômitos, diarréia, que pode levar a necessidade de utilizar outro medicamento muito mais forte que só existe em forma de supositórios o Terceirona divisão 730 miligramas... pois apenas uma dose de 365 é muito pouco nestes casos mais graves.

Tem torcedor, que nunca viu o seu time ganhar um título de expressão. Eu já não sofro deste mal, já que deus é testemunha, que estava no meu quarto aos pulos em vitória vendo o gol de tupãzinho no São Paulo em 1990. Que estava aos berros em 1995, no quarto da república unisex lá na Gil de Góis em Campos, assistindo ao gol de Marcelinho carioca no grêmio no Olímpico. Que estava palpitante em 1998, voltando de salvador vomitando, parando em todas a cidades, ligado no rádio e ouvindo Marcelinho carioca novamente e Edílson acabarem com as esperanças da raposa mineira. Estava embriagado da memória ao não lembrar do empate com o Galo em 1999, mas devia estar torcendo sozinho em meio a torcedores pés de cana de times cariocas com certeza. Aos brados com o oportunismo de David contra os Candangos Brasilienses em 2002 na casinha de madeira cheia de buracos na floresta. E verdejante (opa verde não!) com a raça portenha de Carlitos na campanha de 2005, já em terras castelenses, sem falar no mundial em pé junto com os urubus flamenguistas contra o Vasco lá no norte capixaba e os paulistões da vida....

Este ano também poderia ter tido a chance de realizar um grande desejo. Que é assistir a um jogo do timão. O quimérico, o ideal seria no Pacaembu lotado, todos gritando...não para, não para, não para..... Timão! Mas é que os times capixabas, que neste ano caíram para a novíssima UTI do Brasileiro, ou seja, a série D. Vão jogar em campos de terra, alagados, cheio de sanguessugas, com traves de madeira, buracos e bandeirinhas com os exames de vista atrasados. Estão em estado de coma, em quarentena, não há remédios no mercado, não tem cura! E que se continuarem neste ritmo, vão acabar vendendo seus campos para igrejas fúngicas do apocalipse ou shopings bacterianos oportunistas e serão apenas peças de museu em algum necrotério ou sala desocupada por aí. Se tivesse pelo menos um time decente utilizando a segundona eu teria ido lá ver o todo poderoso, nem que fosse preciso me vacinar antes, comprar uma vela na vila rubim e fazer um plano de saúde completo.

Mas o problema do corinthiano é que ele já é doente, não destas patologias que precisam de antídotos e fármacos de última geração como já vimos, mas de uma doença muito mais grave, incurável e insana. Aqui, por trás deste computador meu caro leitor, não corra não! Volte aqui, não é vírus não... Leia até o final, dont be afraid! Pois aqui só tem um louco poxa!

Louco por ti corinthians! E para aqueles que acham que é pouco, eu vivo por ti corinthians, eu canto até ficar rouco, eu canto pra te empurrar, vamo, vamo meu timão, vamo meu timão não para de lutar...

Segura nóis ano que vem.
E não me venham com camisas de força!



Gilberto Granato

domingo, 9 de novembro de 2008

Laelia

O nome dela é Laelia. E ela é minha garota, já faz parte do meu ser, me alimenta as retinas, me embriaga os sentimentos. E antes que você (e minha esposa) pensem que ando me apaixonando por outras, explico. Laelia é minha orquídea favorita, seu sobrenome é Lobata e ela é alba...

Supõe-se que a história das orquídeas tenha começado no oriente (Japão e China) há 4000 anos atrás. No ocidente a referência mais antiga era de um aluno de Aristóteles chamado Theophrastos há 300 anos antes de cristo, daí pra frente se difundiu igual a aquecimento global, ou melhor, crise econômica mundial e algumas espécies egoistamente vieram parar aqui em casa.

Aqui no morro da formiga, ela passa a maior parte do ano despercebida, assim como suas primas: tímidas, acuadas, inexpressivas, quase um monte de mato. Tem os preconceituosos que chegam e chamam-na de parasita, vê se pode? Parasita é ele que suga o oxigênio que ela emite todo dia sem ao mínimo agradecer. Têm outros que tiram as remelas dos olhos grudados e perguntam: Ah! Isto que é uma orquídea? E tem os transeuntes que conhecem tudo, ou quase tudo de suas funções na terra, mas não entendem que ela está ali, bem ao seu lado, esperando por atenção, por elogios, por uma cantada barata. Até mesmo as Lobatas gostam de um gracejo...

Esta em especial fica pendurada, ou como dizem alguns dependurada (o que não é apropriado). Mora em cima de um xaxim antigo, com musgos, que quase já não dá conta de apoiá-la. Tem uma suculenta intrusa que cresce no cantinho do vaso sem incomodar. Tem orquidófilo que diz que tem florescimento difícil, complicado. Li em outro lugar que só floresce em determinados lugares, balela de teóricos mãos de tesoura. Ela floresce aqui em casa, todo ano, pega um vento desgraçado, constantemente dou umas cabeçadas nela, minha empregada umas vassouradas e tem uma aranha que adora fazê-la de suporte para sua teia predadora. Sacode o ano inteiro, feito máquina de lavar e no mês de novembro, meu mês, que será de meu filho também, ela vem com suas hastes (opa vai dar flor!), que saem de dentro das folhas, um fenômeno. E para ver se os pendões já está quase saindo é só colocá-la contra a claridade da lâmpada a noite e verá sua imagem lá dentro, ainda um embrião de flor.

Com os pêndulos fora da haste, leva alguns dias para abrirem e aí vem aquelas linda flores de pétalas e sépalas brancas e labelo branco levemente amarelado, o seu cheiro é deleitoso, prazeroso, difícil descrever, que além dos insetos também atrai a minha esposa. Ela fica alguns dias nos dando o privilegio de contemplá-la e depois murcha, cai no chão. As que vejo recolho-as e as coloco no solo de alguma outra planta, para servir da adubo, de inspiração, de incentivo, para não desistirem, pois um dia também em flores estarão.

Estou tão sensibilizado, que agora coloquei um arame apoiando o seu vaso na pilastra, afinal de contas, ela merece mais repouso, mais sossego. Veio de algum lugar do mundo, talvez seja uma chinesinha, uma japonesinha e agora está aqui com a gente. Só dou água e alguns nutrientes e ela me dá satisfação em dobro.

A vida deveria ser assim, deveria ser lei, projeto de lei, emenda constitucional, tudo o que déssemos a alguém receberíamos em dobro, já pensou, que beleza? Dar seria o verbo mais requisitado e conjugado do nosso planeta, sem duplo sentido é lógico. E assim todos seriam milionários, era dar um, para receber dois e assim por diante. Uma grande corrente e todos ficariam ricos. Pelo menos de espírito.

O boa-praça Barack Obama que me desculpe, mas o principal fato histórico da semana foi a minha Laelia.



Gilberto Granato
(Barack obama foi eleito o primeiro presidente negro da história dos EUA)

sábado, 8 de novembro de 2008

Uma tarde de chuva e sol em São cristovão


-Joga o bolinho...
-Ele não está prestando atenção no jogo!
-Tem que ficar aqui na beirada!
-Não raspa no chão, não!
-Joga a outra passando um pouquinho mais pra cá!
-Fez o ponto!
-Joga muito!!!
-Amarrou o jogo!
-Joga na parede
-Duas só?
-Joga no fundo
-Joga em mim!
-É três bolas!
-Menos força!
-Joga pra chegar!
-Joga a mais!
-Verde bola!
-Joga mais uma, é você!
-Cadê o juiz?
-Tá de quanto?
-De novo errei!
-Tá suja, deixa eu limpar todas as bolas!
-Foi fraca mesmo
-É sua sim!
-Encosta nela, passou...
-Nossa Senhora!
-O campo não tem biela?
-Ai, foi forte!
-Ai, foi forte de novo!
-É duas cada uma?
-Tem que jogar no meio para não cair...
-Agora mais fraquim um pouquim...
-Em cima da linha, puta merda hein?
-Cuidado Aê, vai bater a bola hein!
-Se não chegar não tem problema!
-Tenta parar perto...
-Fez!
-Duas...
-Três...
-Quatro Bolas!...
-Quase que perdi a canela rapá?
-Falta uma bola!
-Eu acho que ela vai dar um pulo ali?
-Joga em cima daquela verde lá...
-Aí, ó!
-não disse?
-Só porque eu falei que ia ganhar!
-Bati Hein!
-Fechou?
-Fez dez já?
-Próximo...


Nada como uma tarde jogando bola de massa!



Gilberto Granato

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

A gestação

Uma gestante ou mulher que tem em si o embrião. É coisa de Deus, é divino, é inacreditável. Faz o perfeito sincretismo da ciência com a divindade. Primeiro é a confirmação do ato, euforia total, você dá voltas ao redor da mesa, dá telefonemas, pensa no futuro, sonha, liga a tv no Discovery Health, compra livros, vai na internet e procura entender um pouco mais do assunto. Senti-se mais macho. Começa a comprar os infinitos insumos necessários para o bebê e as primeiras consultas são marcadas. É um carnaval! Olê, lê... Olá, lá...

Depois vem a ansiedade pela barriga, cadê a barriguinha? O primeiro ultra-som pura emoção, aí vem os enjôos, as azias, as cólicas, a necessidade maior por alimentos, a primeira percepção dos movimentos, nossa que perfeição, quando não se sente, os pais ficam preocupados, não estão acostumados, depois se descobre o sexo, se constroe um nome. Aí vem o book de grávida, a construção arquitetônica do “espaço criança”, insumos e mais insumos, mais exames, mais sonhos... Laiá... Laiá...

Até que chega à Fase do último mês. Ela já não consegue respirar, é uma luta a cada inspiração e expiração contra o diafragma, vai perdendo as forças, a natureza é coerente, as forças têm que ser poupadas para o nascimento. Dormir? Fica no passado. O marido acorda de manhã e vai procurar a esposa aonde dormiu? Tem dor nas costas, senti caimbras, calor em dia fresco, respira fundo, se der uma folguinha e o silêncio vir ao mundo, vai tentar repousar em algum canto, pode ser o chão mesmo, é que nem gato sempre procurando um novo lugar. Ela fala Ai! E você diz Ui! É agora? Não é só o bebê dando mais um soco na virilha da Mãe. Imagina uma pessoa saindo do nível do mar indo para a altitude do altiplano andino? Pois é assim que a grávida fica no último mês... Como será uma Lhama grávida? Utererê....


Eu acho que tá chegando a hora...
(me deu um frio na barriga!)



Gilberto Granato

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Na hora marcada

Xavier e Silvia, não se conheciam, nunca se viram, não cogitavam a hipótese de algum dia serem apresentados a pessoas com tais nomes, mas se esbarraram e suas vidas nunca mais foram as mesmas...

Já era fim de expediente e o advogado Xavier acabara de atender sua última cliente, que enfrentava problemas com inquilinos desordeiros. No seu relógio, comprado na praia de piúma no último verão, já marcava dezoito e dez, hora do habitual happy hour de quinta com os amigos em um tradicional boteco da cidade. Local onde morigeravam os casos da sociedade, discutiam a política e exorcizavam seu problemas. Lá pelas oito da noite, Xavier como de costume, se retirava e ia para casa encontrar sua esposa e seus dois filhos um de cinco e uma de três anos. Já era casado há 15 anos e levava uma vida honesta, simples e confortável, mas a partir do fim de tarde daquele dia o ventos mudaram de rumo e a o seu platô de prumo.

As 18:13 daquele dia tocou a campainha do escritório uma mulher de altura mediana cabelos loiros lisos, olhos castanhos, corpo tonificado, pele bem cuidada, dentes claros, tênis nos pés e uma pinta em cima do lábio esquerdo, não dessas cabeludas, uma simples pinta, parecida com estas feitas com lápis, trajava roupa de ginástica. E ao abrir da porta, ofegante e transpirando falou:

- Dr Xavier?
- Pois não?
- Me desculpe chegar a esta hora, mas é que no meio da minha corrida lembrei que tinha uma consulta marcada com o senhor.
- Qual é o seu nome?
- Silvia, Silvia Lunes.
- Me desculpe, mas a consulta era as 16:00 horas e no momento a secretária já foi embora.
- Me desculpe eu, (nesta hora começou a amarrar o cabelo) mas é que meu dia foi um sufoco e só pude vir agora antes da aeróbica.
- Mas não era corrida?
- corrida para a aeróbica. Será que o senhor poderia pelo menos me ouvir?
- Tudo bem, mas eu tenho um compromisso para agora.
- Não vou me alongar, apenas me ouça (e pegou de leve na sua mão).

Silvia contou que estava vivendo um problema judicial de herança na família, herança de seu avô, um grande e tradicional advogado da região, falecido a pouco. Depois de 20 minutos de conversa, Xavier aceitou a causa, marcou a consulta para a próxima semana e agora já sua cliente foi em direção à saída, mas antes ao passar na frente do espelho da recepção, não se conteve e olhou para o seu físico e perguntou para Xavier:

- você se exercita?
- Não, porque?
- Pois deveria, Faz bem para os membros...

Xavier apenas sorriu meio sem graça e correu para o bar, contou o episódio para os amigos, ouviu as inevitáveis piadinhas e depois de uns chopes foi para casa e seguiu sua rotina patriarcal, beijou a esposa, brincou com os filhos e o cachorro, tomou seu banho quente e dormiu sem ao menos ligar algum aparelho eletrônico.

Uma semana se passou. E no dia da confraternização dos amigos ao se despedir de seu último cliente que estava deprimido em processo de separação, quem chega? Silvia, de roupa de ginástica branca, batom vermelho e um perfume para mexer com o olfato de qualquer mamífero. Chegou com lágrimas nos olhos e já contando todos os problemas familiares ao redor da herança. Xavier apenas ouviu atento, sentado na sala de recepção mesmo. Já pela metade da conversa, ela se aproximou e sentou ao seu lado. As pernas do joelho para baixo de ambos ficaram encostadas e Xavier começou a sentir as coisas diferentes do normal, a chamou para dentro do consultório e conversaram por 40 minutos, depois disto nova consulta marcada e ela novamente ao sair, olhou para o espelho, virou de costas e olhou para toda parte posterior de seu corpo, como se quisesse investigar até o calcanhar, Xavier não conseguiu desviar o olhar e admirou toda aquela encenação pelo próprio espelho. No momento pensou que a melhor coisa que tinha feito em sua vida, era ter colocado aquele espelho na sala de espera.

Na semana seguinte foi a mesma coisa. Silvia desfilando seus trajes de ginástica e Xavier faltando as “horas felizes” com os amigos e chegando em casa cada vez mais inspirado, olhava fotos antigas, jogava vídeo game com os filhos, comprou um canil novo e mais confortável para o cachorro. E falou com a esposa que iria começar a correr na próxima semana, se não chovesse.

A coisa foi aumentando de proporção. E em mais uma semana, já prevendo a sua falta a reunião no bar, contando as horas no relógio ansiosamente, dispensando a secretária neste dia sempre meia hora mais cedo, alegando bons serviços prestados e com a barba e a colônia pós barba em dia, ela chegou, desta vez toda de vermelho, uma roupa curta, curta não, curtíssima, que ele jura ainda ter visto uma espécie de cinta liga na parte posterior da coxa, seus cabelos estavam molhados e o cheiro do perfume nunca tinha sido tão forte. Ele abriu a porta e ela o pegou pela nuca e apenas falou sussurrando no seu ouvido: Na próxima semana serei toda sua!!! E foi embora sem dizer mais nada, como alguém que fala alguma coisa e fica envergonhada logo depois.

Xavier foi embora alucinado, em clima de final de campeonato, eufórico, acalorado,
Bem disposto, a partir dali deixou de contar os minutos para contar os segundos para o próximo encontro, o maior encontro, a grande celebração, o Dia D. Não dormia direito, sua esposa fazia chá de camomila, mas nada tirava da sua cabeça a próxima semana, começou a correr todo dia, pela primeira vez na sua vida fez as unhas em um salão e abriu aquele saco de cuecas coloridas novas que tinha ganho de sua sogra no natal passado.

No tão esperado dia. Atendeu seus clientes com entusiasmo, nunca brincou tanto com a secretária, foi mais de dez vezes ao banheiro. Os amigos de bar? Nem ligava mais para eles e a recíproca também era verdadeira. Ele só tinha um objetivo em sua vida: Que o relógio passasse das dezoito horas.

Foi quando deu 18:15 e a campainha tocou. Ele saiu com pressa, quase derrubou o vaso de cerâmica chinesa que ficava no corredor e viu que de roupa amarela e azul na porta, era o carteiro fazendo entregas atrasadas do sedex depois da hora, pegou a encomenda nem abriu, sentou no sofá da recepção... deu 18:30,19:00,19:47, pensou: “vou esperar até 20:30” e nada, nunca mais Silvia apareceu, nunca mais foi vista, nunca mais conheceu alguém chamada Silvia, nunca mais olhou para o espelho novamente.

Neste dia Xavier foi para casa, beijou a esposa, brincou com os filhos, colocou a sua cabeça embaixo do chuveiro quente e deu berros de felicidade, gritos lenitivos e suspiros de conforto. Pois Nunca em toda sua vida tinha se sentido tão aliviado!



Gilberto Granato
(Homenagem a Nelson Rodrigues)

domingo, 2 de novembro de 2008

A história da família Figuras de Linguagem

Esta família habitava uma região do interior do Brasil, mais precisamente nas margens do Rio Páramo, onde hoje é o município de Casca de Macaúba, entre o Espírito Santo e Minas Gerais. Figuras semânticas e sintáticas, foram um dos primeiros colonizadores vindos da Itália que ajudaram a fincar raízes e a prosperar a muito custo aquela região.

O Patriarca desta família era senhor Metonímia, grande homem, um trabalhador nato, “sobre o seu teto não faltava educação e disciplina”. Sua esposa Metáfora, sempre esteve ao seu lado, cuidava da família com mãos de santa. Seus filhos eram: Catacrese, que durante a infância tinha o estranho hábito de quebrar os pés das mesas, casado e vivendo entre o amor e ódio com Antítese, quase não eram vistos juntos. Antonomásia, que nasceu ainda na terra do macarrão, casada com Diácope que ele apenas ele, reformou o casarão da família. E Sinestesia, que irradiava luminosidade durante os trabalhos diários com a maciez do barro na confecção dos utensílios da família, entrou num convento de freiras que anos mais tarde abandonou e ficou a cuidar de seus pais.

Seus Tios eram por parte de pai, Hipérbole, que por mais de mil vezes ajudou a família a se refugiar das cheias do rio Badaró, casado com Apóstrofe, mulher muito religiosa, que fazia questão de dizer durante o dia : “Oh Deus! tem piedade de nós”. Hipérbato que coincidentemente também tinha o mesmo costume, a sua era: “das minhas coisas cuido eu”, casado com Gradação que sempre que chegava de alguma viagem distante parecia não conhecer ninguém, ficava quieta, depois de um tempo começava a conversar e alguns dias mais tarde já estava a dançar sozinha pelo velho casarão. Silepse adorava literatura, para ele “Os lusíadas” glorificou nossa literatura, casado com a excelente Dona Ironia mestra na arte de judiar das crianças. Pleonasmo era o mais ausente, sua ausência era sentida nas reuniões matinais da manhã por todos da família, tanto que morou sozinho e não se casou.

Por parte de Mãe tinha Dona Anáfora que era uma ilha cheia de graça, ilha cheia de amor, ilha rodeada de gente envolta, viúva de Eufemismo que foi morar com Deus depois de tentar cruzar o deserto de Braga. Prosopopéia que se portava como um jardim, olhando as reuniões da família sem dizer uma palavra, casada com Assonância um mulato nato no sentido lato mulato democrático do litoral, o que na época era uma união incomum. E Paradoxo que sabia tudo de construção de canoas, mas não sabia nadar. E Tinha que aturar os roncos de sapo croâ, croâ, croâ!... de sua esposa Onomatopéia depois dos almoços de domingo.

Já o resto da família fica para uma outra história

Entendeu minha linguagem?

Seu figura!



Gilberto, Gilberto Granato é parente de Epizêuxis.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Os Discos Voadores

Eles não estavam no céu, mas vi um. Uma vez na infância. Estava brincando de pique com os guris e ele fez a curva lá no céu escuro, foi o único que vi, corri até a esquina e não o avistei mais, passei por mentiroso, mas que eu vi, eu vi.

Agora estou com uns aqui nas mãos analisando a textura, arte gráfica, encartes, veja só este aqui custava 2.190,00 cruzeiros, este outro avisa que também está disponível em cassete, este está quase perdendo a capa, olha este pedindo desculpas, pois repetiu a mesma faixa duas vezes e sugere substituição. Você que nasceu antes da década de oitenta, já sabe do que eu estou falando; Dos discos de vinil, do conservador e tradicional Long play o LP.

Foram neles que ouvi minhas primeiras canções. Ia com a Mãe lá na Mesbla do centro de vitória, que hoje anda sem chinelos. Era uma ação lúdica ver aquele monte de capas de discos, tornava-se quase uma exposição de arte. E para ouvir? Com o maior cuidado para não arranharem e com o máximo de sinergismo nas agulhas, por favor. Tirava-se dos plásticos e prontamente exalava aquele cheiro de novo, de coisa nova, de novidade. E aqueles estalos! Igual pipoca estourando, antes da primeira faixa? Deixava-nos ansiosos pelos primeiros acordes, será que seria a bateria, o baixo, um teclado ou o vocal mesmo? Comprava-se um e todo mundo já sabia o que você ouvia, não tinha como esconder um objeto de 30 por 30 centímetros. Tinha o processo arquitetônico de fazer o lado “A” conceitualmente diferente do “B”, ou colocar os Hits no “A” e as mais alternativas no “B” e várias outras vantagens para os que valorizam o passado, assim como eu.

A maioria das pessoas foram se desfazendo deles, dos aparelhos, sem olhar para trás. Antes que fosse tarde comecei a gritar aos quatro cantos e minhas sempre generosas tias, sabendo do meu apelo, ouviram e me deram os seus sem uma ponta de ressentimento (pelo menos aparente) o que me deixou com menos remorso, mas pelos menos elas sabem (ou acho que sabem) que estou cuidando da história, de nossas histórias, de suas histórias. alguém tem que fazer isto? O primeiro, da Gogóia já está recuperado, tinha uma colônia centenária de formigas no seu motor o outro da Terezinha ainda precisa de “umas borrachinhas” que estavam ressecadas, que só devem ter lá na capital. Ganhei discos dos tios, dos amigos lá das Gerais (mineiro já é mão aberta, parente então), peguei aqueles que estavam lá em vitória, que ficavam sempre com o Chico Buarque na frente me olhando com seus olhos claros e os trouxe todos para aqui, lá no porão, já sem as baratas, junto com a piscina de desmontar, a bateria, os brinquedos de criança ainda nas caixas, o violão, atabaques, casaca, zarabatana, sob os olhares atentos de uma índia Karajá, quadro pintado por Idjahuri Karajá lá da ilha do bananal.

Sentei e comecei a descascar e a emendar fios, minha companheira cadela ximbinha ia comendo os pedaços que caiam no chão igual a chicletes, não deixando sujeira aparente. Olhei atrás do aparelho e olha que beleza, apenas quatro orifícios para serem conectados, assim fica fácil, não precisa ligar para ninguém com dúvidas, apertei o power e ele começou a rodar lentamente, deu para ouvir o seu esforço nas caixas. Abri o primeiro e com vontade de espirrar, a “garganta diferente” e com os olhos já avermelhados pelas colônias de ácaros, que também faziam suas história ali naqueles discos. Ouvi os primeiros acordes de “Homeward bound” de Simon e Garfunkel e deixei chegar até o refrão por duas vezes, pronto já havia recuperado algo perdido, algo esquecido, mais uma responsabilidade para meu Otto tocar em frente. Abri outro “A burguesia fede/A burguesia que ficar rica/ E enquanto houver burguesia/ não vai haver poesia” Cazuza disparando seus rojões na sociedade antes de partir. Ouvi Egberto Gismonti, Nélson do Cavaquinho e “kátia flávia” de Fausto Fawcett e os robôs efêmeros, que estava na trilha da novela “O Outro” de 1987, com a Luma de Oliveira exibindo o seu corpinho escultural com uma roupinha de ginástica bem calhiente na capa.

A festa já está pronta. Aguardo os convidados!

Uma ode aos discos de Vinil
Uma ode ao futuro
Uma ode a minha alergia novamente!


Gilberto Granato

domingo, 26 de outubro de 2008

De olho na caça

Que calor infernal fez hoje!
Groenlândia segura as pontas!

Após uma tarde sem sexo, sem mentiras e com videotapes, resolvi efetuar o meu último ato desta noite de domingo, por sinal bem esdrúxulo. Cortar o cacho de banana.

O meu pé de banana, minha bananeira, fica aqui mesmo em casa e me é generosa. Lembro do dia em que fiz a sua cova bem profunda, até onde meu braço não alcançasse mais, coloquei adubo, terra apropriada e a enterrei para a vida. Uma espécie geneticamente modificada conhecida como prata-mirim. É uma bananeira que não cresce muito e é bem fértil.

Após o plantio, fazia questão de mostrá-la com orgulho ainda pequena para todos os visitantes. Ela ainda miúda, despertava risadas do tipo: um pé de banana no quintal? Vai ficar pequena é? E quem vai cuidar? Esse cara não é normal. O tempo passou e hoje todo mundo acha docinho quando come, acha exótico ter bananeira no quintal, fazemos doces, doações e sobra até para os pássaros frutíferos. Todos adoram minha banana, ou melhor, minha bananeira.

Acabei de cortar mais um cacho, grande tem mais de 140 bananas e têm mais dois que daqui uns meses vão amadurecer. Cortei com precaução para me esquivar da nódoa, que já me manchou algumas roupas, deixei o arame pronto para prendê-lo lá no boteco, cortei, pesado pra cacete! E fui levando, gastando minhas últimas energias do fim de semana, pendurei com muita dificuldade, coloquei um jornal (classificados é claro) embaixo para neutralizar seus vestígios, sentei em um banquinho de jatobá do cerrado e fiquei a pensar com altivez as futuras doses de potássio que serão fornecidas para a minha família, agora o que era um boteco, virou uma mercearia, quem sabe amanhã eu também não compre uns pacotes de biscoito, umas mariolas, uns pirulitos...

Nesta de ficar olhando. O meu gato ximbico estava lá, deitado em cima da bancada exausto observando tudo. Hoje foi dia de banho com um novo xampu super clareador segundo o fabricante, mas não relatou nenhum efeito colateral do tipo leseira total. Engraçado o gato toma banho e é aí que ele se lambe mais, ele não deve gostar do banho, do cheiro do xampu, se bobear nem de mim, mas gosta da casa, disto tenho certeza.

Estava lá, deitado, rabo mucho, pupilas semi-dilatas, quando inesperadamente um belo grilo de tamanho diminuto e de um verde musgo aterrizou no chão. O gato prontamente ergueu a cabeça, dilatou as pupilas e seu rabo começou a dar umas sapecadas, típica de predador na espreita de sua caça. Prontamente tentei desviar a sua atenção com o tradicional psspsspsspsspsspss!..... Ele desviava sua atenção e me olhava, relaxava e o grilo sem saber do perigo que estava ao seu redor, dava outros pulos e ximbico já levantava as patas e já figurava posição de ataque, por sinal, foi ele o afugentador da fauna desta casa, os sapinhos coloridos sumiram, as mariposas também e os beija flores já não são tão (olha que junção de aos!) mais imaturos como antigamente.

E continua... psspsspsspss!.... e o grilo pula.... psspsspss!.. e o grilo dá mais um salto, até que resolvi apagar as luzes e me afastar do local, o gato fez o mesmo, cansou de tanto desvio de sua atenção, foi procurar um lugar mais macio e com menos gente chata como eu...

E eu? Sou o salvador da noite meu leitor, salvei a vida deste jovem grilo verde

Agora meu caro inseto, quando eu estiver precisando de sorte, lembra o que eu já fiz por você tá?

Boa noite.



Gilberto Granato

sábado, 25 de outubro de 2008

Ao dia de Pierre Fauchard

Cedo nesta época e mais fresco do que a dias atrás, devido ao opinado horário de verão. Tudo propício para uma bela consulta matinal com a TV passando reportagens de reivindicações de moradores dos bairros das terras capixabas.

Um senhor com nome de mês entrou hoje no consultório. Que não nasceu em Agosto e nem é parente do Setembrino, muito menos do Outubrino. Chegou dez minutos antes do previsto. Era o meu primeiro cliente. O senhor “nome de mês”, chegou às três horas da manhã em Castelo, dormiu pouco. Tinha ido a capital trazer adubo inflacionado para um agricultor da região, mesmo assim, encontrou animo e achou importante ir cuidar de sua saúde bucal, que já estava precisando de uma reforma, já há algum tempo, ele sabe disto e não se preocupa, pois chegou a sua primeira consulta “fagocitado pela esposa”, se não fosse ela, ele não estaria ali antes das oito da manhã de um sábado de sol (A bondade das mulheres sobre os homens!). Já nas outras consultas sofreu mitose e foi sozinho.

O que o senhor “nome de mês” gosta mesmo aos sábados e de tomar umas cervejas e creio que durante a semana também, como já disse é um senhor, tem netos, anda como quer, já plantou suas árvores, já entende bem a vida, faz dela o que bem entende, é feliz. Deitou-se na cadeira e durante uma hora permaneceu serenamente boquiaberto, enquanto eu restabelecia o desgaste de uma vida mordida, doída às vezes, mas em que ele se manteve em pé, firme até aquele instante. Com certeza seus genes passarão para as próximas gerações, é um Darwiniano.

Após uma hora o senhor “nome de mês” levanta-se bem melhor, animado, já pensa na sua cerveja lá no seu boteco favorito e foi de lá que durante uma hora, lembrou de Ananás, que não é parente do abacaxi, muito menos do tupi guarani, apenas seu companheiro de boteco. Ananás como bom Castelense, vai ao boteco pelo menos quatro vezes por semana. Homem com poderes monetários, que segurou a esposa enquanto era munido de tal poder, fofocas baixas de boteco.

Certo dia, Ananás achou que era hora de recompor o seu sorriso, já era um homem só, precisava de outras formas de conquista, as mulheres sem o atrativo monetário, são mais exigentes. Foi ao dentista e colocou uma bela perereca, que não é o anfíbio, muito menos aquela que você está pensando agora. E voltou a sorrir. Foi o comentário do boteco, os dentes novos de Ananás!

O senhor “nome de mês”, passou a observar que o velho companheiro de esquina ao tomar a sua cerveja gelada da marca favorita, sempre a retirava antes, ela a perereca, colocando-a no bolso da camisa ou da calça, dependendo do traje. E aí voltava a ser o velho Ananás de antigamente ( com redundância por favor). Passaram-se dias, pois a conversa no botequim vai ficando “gasta” e ele resolveu perguntar o porquê de tal ato contraditório. Talvez a dentadura o machucasse? Não estivesse acostumado ainda? Tradicionalismo? Loucura?

Não, nada disto. O senhor Ananás apenas disse que desta forma, sentia melhor o gosto da cerveja!

Viva as cervejas de boteco, que fazem mais sucesso, que certas mulheres de boteco!

Ao Dia do Dentista!



Gilberto Granato

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O tempo não para

“Tem pequenas coisas que nos fazem falta, assim como, tem grandes coisas que não valem à pena”

Ele estava lá, em cima do criado mudo, impressionante esta palavra, não sei nem se ela existe mais, agora deve se chamar “dumb servant” e custar um pouco mais caro. Será que era uma forma de retaliação aos criados dos antigos casarões que se arriscavam a tecer um comentário sobre o tempo? Que falavam do gosto da comida? Ou que respondiam de canto de boca aos chiliques das esposas dos senhores de engenho? Ou ele exercia a mesma função do criado, porém mais taciturna. Bem não importa, só sei que ele estava lá, tinha uma cicatriz de uma queda bem no meio da testa, do tempo que servia a uma prima minha lá na capital, coincidentemente era mudo também, a não ser quando a empregada com todo o seu carinho tifonês (Deus grego) mexia em suas articulações, aí ele emitia um sinal típico de TV fora do ar, mostrando o seu desconforto e descontentamento.

Era cinza maduro, retangular, emitia uma singela luz amarela e tinha uma inteligência fenomenal, não perdia a hora, nem os segundos, que organização. Eu, um semi-organizado convicto me baseava na sua luz, para não me perder no tempo, no sono, no esquecimento, no compromisso, na vontade de chutá-lo, mentira, nunca quis chutá-lo sempre o tratei bem ao contrario de quem fez aquela cicatriz na sua testa, um covarde, um desleixado, um chutador barato. Ele era a minha segurança, confiança, me dava boa noite e me cobria antes de dormir e eu em contrapartida caprichava nas prosopopéias. Era o primeiro ser que eu olhava ao amanhecer. Às vezes, em noite de apagão, ele acordava piscando, emitindo um sinal de alerta, pedindo socorro, ajuda e eu em retribuição, dava e voltava tudo ao normal, ufa!

Um dia o seu maior inimigo. Aquele ser invisível, que anda por dentro dos fios e se propaga por meio da reordenação dos elétrons, sofreu um fenômeno físico parecido com um curto (o eletricista não conseguiu se fazer entender), uma baixeza, um golpe rasteiro, uma sacanagem mesmo a qualquer ser inanimado do bem, no meu amigo do bem e ele parou, nunca mais propagou sua luz, apodreceu, cheirou a queimado. Foi-se o meu retangular companheiro.

Fiquei uma semana inquieto, ausente, com um vazio dentro de mim. Ele foi para a UTI ficou lá muito tempo, não me davam notícias, perguntava a minha esposa a todo o momento e ela só remediava o meu esdrúxulo sentimento, como se já soubesse o fim. E foi o fim. Não voltou mais, nem para doação de seus parafusos para um outro ser, nem para um despedida muda, silenciosa, nem para um segundo a mais.

Esta semana chegou um parente seu, do mesmo local, da capital. Prateado, com aerodinâmica moderna, embalado em uma bonita caixa. Coloquei-o em cima do servo criado, que durante este período, permaneceu como sempre sem emitir uma palavra, de luto. Ao conectá-lo aos inconfiáveis orifícios do ser invisível sorrateiro, meu espanto maior, foi ver a sua vitalidade, típica da jovialidade mecânica, do início. De madrugada ao olhar para ele, enviou-me uma intensa luz vermelha rubro de três algarismos, que ficou gravada em minhas retinas e que até agora ao fechar os olhos ainda faz-me lembrar dos números.

Ainda estamos nos conhecendo, nos acostumando. Tenho certeza que faremos uma boa amizade. Afinal de contas dependemos um do outro.

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
Eu não vivo mais sem um rádio relógio
Eu não sou louco!


Gilberto Granato

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Tratado da ociosidade

Há muito tempo eu já precisava debater um pouco sobre o complexo título. Tem uns amigos meus, na verdade dois grandes amigos da onça maracajá, que desde que voltei da terra do nunca, proferem esta palavra, que confesso não a entedia muito bem e a achava extremamente ultrajante.

Vamos lá, vamos ao dicionário; Ociosidade: sf falta de trabalho, desocupação, folga, porra pesado! Não condiz muito com aonde quero chegar, mas acima está Ócio, que não é parente do bócio, que já anda meio controlado pelo iodo, nem do equinócio astronômico, muito menos daquele negócio que você esta querendo fazer a muito tempo e anda meio sem tempo, ou melhor, sem ócio para fazer. Mas voltando ao dicionário é: descanso, folga, lazer, vagar, opa! Já melhorou, podemos começar.

Meu primeiro impacto gramatical foi na minha viagem à vitória a uns dois anos, para a festa de aniversário de um destes doces companheiros. Chego lá, revejo os parceiros e chega um transeunte e me joga esta – À, este que é o tal do ocioso? Caralho, quem é esse cara? Minha pobre e humilde reputação já tinha chego na minha querida ilha do mel de forma um pouco deturpada e por um deturpado. Olhei aquele pobre coitado cheio de doutorados e problemas psicológicos graves e apenas fui atrás da máquina de chope.

Mas o cidadão em questão me fez chegar até a concretude de meu pensamento atual e procurar uma solução empírica do problema metafísico-teológico que me perseguia. O habitante principalmente da cidade, não consegue se livrar do cinto de segurança, que o prende de descobrir a si mesmo. Ninguém poder parar, se parar, lá vem o mané... que moleza hein? Folgado, à toa, improdutivo, estático.... A nossa sociedade, principalmente erguida e muito bem erguida na base da enxada, não suporta descansos, muitos se foram, sem olhar para dentro de seu coração ou contemplar ao seu redor as inúmeras possibilidades que a vida nos dá. Não tiveram tempo para isto.

Nesta semana, devido a incrível dilatação abdominal de minha esposa, agora sim uma melância provocada por um pequeno e lindo ser de duas consoante e duas vogais, proporcionou o aumento do meu turno de trabalho, sim do meu primeiro trabalho, que é o de dentista, que me dá prazer, pois o faço com alegria, que passará a ter uma carga horária de 11 horas diárias, mais as manhãs dos sábados ensolaradas, beleza, tudo bem, mas o que me preocupa é o meu ócio. Como ele ficará? Triste? Sem atenção? Sem evolução? Sem empolgação? Sem utilização? Sem ção Meu ocupado irmão? É nele que eu procuro as novas ferramentas do meu dia a dia, é nele que eu encontro uma outra razão para fazer os outros sorrir, para me fazer sorrir, para despertar as minhas habilidades, para melhorar os meus conceitos, para melhorar o mundo!

Vi na Tv estes dias na plenitude do ócio uma entrevista, nestes canais “B” com um sábio sexagenário ator. Ele foi perguntado quais eram as 10 coisas que um ser humano deveria aprender nesta vida. Em uma delas disse: Viver o ócio sem culpa. A repórter até se espantou, e ele frisou a frase novamente com mais veemencia. E sabiamente definiu o sinônimo de ócio: criatividade, isto mesmo é no ócio, que o ser humano busca novas alternativas para ser mais completo, mais inventivo, mais inteiro, mais multifacetado. Teve um outro escritor, que comparou o ócio ao prazer, “É preciso a sociedade sentir prazer para as coisas andarem melhores em todas as ciências”. Já eu defino da seguinte forma, o ócio é como uma prateleira cheia de pacotes de miojo, ou você passa batido, ou você pega um, ou você vai experimentando lentamente cada sabor novo a cada ida ao supermercado e vai conhecendo desta forma mais os sabores vida.

Que fome
Que filosofia ociosa
Que saudade do meu ócio
Que ócio!



Gilberto Granato

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Oscarito Soares

Oscarito Soares, também conhecido como Oscar é fruto dos desfruto. É fumo de rolo, é pedra no sapato dos hipócritas, é Kumu, é vendedor da humanização na prática de saúde pelo país a fora, pois se fosse na época ditadura ele já estaria mesmo era fora.

É artista sombrio, enigmático, pragmático, profano mesmo melhor dizendo. É renascentista, ou melhor, não é não, não se vê como o centro do mundo. É naturalista, sim naturalista, daqueles que se pudesse andava nu cossando o saco mucho. È comediante, é folk é um tomador de cerveja e não liga para os rótulos. Seu lugar na história seria o sul da mesopotâmia, mais precisamente na babilônia criando e confundindo. Seu lugar hoje é seguir a massa de ar quente, quente por melhoras, por atenção, por um copo de água sem parasitas.

Oscar foi, ou melhor, é, pois está longe de morrer ( já tirou o apêndice!) inspiração para os trangressores, para os corretos, para os éticos, para os bêbados e para as almas penadas de nossa comunidade. É o ator protagonista de uma série de belas crônicas de seu novo paradeiro o Acre. Terra do esquecimento, dos pontos de ônibus descobertos e dos fãns de Euclides da Cunha. As belas crônicas, que na verdade estão bem agudas ainda, foram enviadas recentemente para minha esposa e acabei de ler, não me contive, não pedi autorização e também não pagarei direitos autorais, pois ainda não recebi a minha insalubridade....Vou colocá-las aqui para que não se percam neste mundo cheio de backspace.

Grande Oscarito, grande amigo, grande Pai, grande médico, grande artista da periferia....

Á, já ia me esquecendo. Ele tem cheiro de fumaça!


Gilberto Granato.


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PINÁCULO

Nossa vida no Acre.
O inverno está chegando. O bolor já se anuncia.
Ontem escutei alguma personalidade dizer que o Acre é o centro da América latina. Sabe que é verdade, está bem no meio mesmo. No fundo, no fundo, sempre pensei que isto fosse lá pelas bandas de Cuiabá. Mas pega bem admitir que o centro é aqui. E, reparando melhor, o centro, bem centro mesmo, está aqui no meio da nossa casa. Esta casa não se inclina de jeito nenhum. Se o Rio de janeiro for para baixo e Lima subir oito metros, como uma gangorra, aqui em casa não acontece nada, no máximo o copo desliza alguns centímetros sobre a mesa. Se uma massa migratória subir para o México tentando um coyote que os conduza por Tijuana, lá pela Argentina vai faltar neguinho e o nosso vasilhame quase não se moverá. Se muito escorrega um pouquinho para o outro lado da mesa.
Eu oriento as crianças a não ficarem muito tempo num canto da casa ou evito que brinquem juntos por tempo demasiado uma vez que há risco de afundar Bogotá e elevar Montevideo, podendo inclusive represar a foz do Rio da Prata. Se tua casa aí longe se inclinar muito podes crer que eu e minha mulher estamos namorando por aqui ou colocamos as compras no lugar errado. Mas a ordem e disciplina das coisas por estas bandas foram abaladas. Minha mulher entrou numas de colocar uma cortina horrorosa separando a sala com a cozinha. Alega que assim o ar condicionado não escapa e o conforto da sala de jantar melhora. Horrorosa esta maldita cortina, parece meretrício. Pois bem, lembrando da física, sabemos que o ar frio é mais pesado que o ar quente, então o centro da américa latina se desloca. Assim, para compensar, eu tenho que me contentar ficando refugiado na despensa, lá nos fundos, sentado num banquinho de pau. Eu e meu vira-latas, o Filé. Dois vira-latas anônimos lutando pelo equilíbrio desta terra.
Aposto que você nem sabia disto.
Se vieres ao Acre deixe alguém no seu lugar.
(êta, balancinho bom!)





QUASE

Nossa vida no Acre.
Quando chegamos na cidade um circo estava por lá, ou, melhor, por aqui.
Um circo poído, velho, meio godê, assim, assim, meio caidaço. Pois bem, reparei que o seu staff também não tinha lá o seu glamour. Um trapezista meio raquítico, a atendente do mágico com suas meias de liga com uns furinhos evidentes, o mágico meio bêbado, o dono bem gordão, a mulher do dono com a maquiagem borrada, o palhaço meio com cara de trapezista, o bilheteiro meio com cara do dono, a atendente do mágico meio com cara de mulher do dono, o dono meio com cara de mágico, o vendedor de balas meio com cara de palhaço, o palhaço meio com jeito de tratador de animais, os animais meio com cara de bilheteiro, o tratador de animais também é a cara do dono. Enfim, eles nunca estavam juntos no mesmo alcance visual do espectador. Pera aí, espera aí. A mulher do mágico é a mesma mulher do dono. E o dono também é a cara da mulher do mágico.
(...)
Passada a temporada o circo foi-se embora com suas matuletagens sobre o capô da Kombi ano 76 e apenas um motorista meio familiar, levando isto tudo. Nunca mais vi o dono.
O norte é assim, tem que ter coragem e muita vontade para lapidar o diamante da vida.
Tudo isto é o espetáculo.
Traga seu circo também.
Te espero.
(você seria uma excelente mulher do mágico)


INFÂNCIA


Nossa vida no Acre.Vivo em uma região de florestas e rios. Meus filhos começaram bem a se adaptar no novo mundo longe da vida antes de apartamentos e shopping center. Já a minha mulher tem dificuldades para se adequar a um lugar com profundas limitações de trabalho, facilidades e conforto.Realmente não é fácil viver num local estranho.
Outro dia ingressou na nossa família um pequeno cachorrinho vira-latas de pouco mais de um mês de vida. Como a nossa casa fica em um sítio que tem outros cães, pareceu elementar que ele seria triturado pela alcatéia feito filé mignon. Seu nome então é Filé. Mija e caga pela casa inteira. Tritura sapatos e chora a noite toda.
A casa é uma bagunça, bonecos, bonecas, carrinhos, canetinhas, xixi e coco de cachorrinho.
É uma casa de infâncias.
Infância dos homens.
Infância canina.
Infância minha.
Adoro isto.






DEUS

Nossa vida no Acre.
Hoje é domingo, acordei cedo para ver meus pacientes no hospital .
Retornei para casa e vi meus dois filhos deitados em meu lugar na cama junto à minha esposa. Uma pintura renascentista. Não há o que descreva. Os olhos fechados, cabelos revoltos. Nunca achei que o universo se resumisse tanto em algo tão simples.
Apenas velar o sono dos meus.
Um segundo no céu.
Vitória da vida.



TAXONOMIA

Nossa vida no Acre.
Moramos em um sítio. É esperado que, à noite, muitos bichos se anunciem porque o lusco fusco das luzes da casa atrai qualquer ser vivo que por isto se encanta. As criaturas da noite. Procuram luz aonde secar o peso de tanto sereno. Mas chega de roubar a letra de uma música perdida que pouca gente sabe o que é.
Pois bem, certa noite uma cigarra amazônica, repito, a-ma-zô-ni-ca, imensa, desculpe a redundância, começou sua ladainha na lâmpada fluorescente da sala de jantar, e a sua ladainha, meu amigo, é uma senhora ladainha. Minha filha olhou aquele bicho que tinha um imenso cabeção e olhos esbugalhados e já definiu seu nome: é um inseto-sapo, papai!
Meu filho, por sua vez,diante daquela buzina que o animal fazia definiu ainda melhor: é o inseto-incomodativo!
Outro dia a minha prole foi bisbilhotar uma galinha que orgulhosamente chocava os seus ovos sobre o ninho. O bicho não gostou da intromissão e deu-lhe uma bicada no rosto do menino. Assim surgiu a galinha-raivosa. Depois veio o cachorro preto-perigoso, a lagartixa-tigre, a formiga de bunda-amarela, o besouro-transparente, a aranha peluda-imensa, o cachorro marrom-medroso, a galinha-do-bico-preto, o lagarto-espinhoso, o bicho-cabeludo-elétrico e outros tantos mais.
Rezamos para que um simpósio de biologia ainda vá anunciar toda esta nova taxonomia, mais simples, mais pura, mais precisa e ,quem sabe assim, possamos esquecer toda aquela parafernália-astronômica de nomes em latim.
(que, por sinal, nem sei direito meu nome na escala animal).




HENRY


Nossa vida no Acre. Fui o primeiro a chegar e fazer o ninho.
Procurei habitar perto do hospital, já que num hospital eu tiro meu ganha-pão, mas o hospital é longe de tudo, principalmente das pessoas pobres, e é um hospital para pessoas pobres.A culpa não é minha. Cheguei e já era assim. Porém as pessoas pobres circulam onde circula o dinheiro que eles nunca terão, porém circulam...no centro, bem longe do hospital, acompanhe a equação, please. Estou longe do centro, habito e trabalho longe do centro e para chegar no centro, onde várias coisas me são essenciais, inclusive os pobres, que são essenciais para o Brasil, que se alimenta deles, e não dá muita coisa para eles, desculpe a filosofia, mas para chegar no centro existem inúmeras lombadas do padrão tibetano e mais de seis kilometros a percorrer. Em síntese, me fodi. À pé, estou fodido.
Comprei uma bicicleta. Depois de uma semana, quase enfartei. Bicicleta tri-boa, mas as lombadas, convenhamos, lembra que eu falei padrão tibetano. Tenta e me diz. Não dá, né?
Com um amigo, compramos um chevete ano 1981. Mais velho que o meu colega de trabalho. Não to mentindo, não. O colega existe e tem 24 anos e é , de fato, mais novo que o chevete. Mas o carrinho é bom. Velho, ranzinza e bom, confiável. Bem, quase. As primeiras lombadas do padrão tibetano ele não subiu e no centro eu fiquei, confinado com a lata-velha. Percebeu a equação, eu tinha ido mas não conseguia voltar. Tudo bem.
Limpamos o carburador e ele voltou a ser feroz. É um bólido marrom claro. As meninas da cidade chamam de buriti-do-amor, só para fazer troça. Ele é velho e carrega um cirurgião já desgastado, sem tambor de freio e que começa a engordar. Eu e o chevete fomos feitos um para o outro.
Meu filho diz que o automóvel é horrível, acabado, terrível porém muito valente.É um carro valente . Me sinto valente também, por conduzir o sentido anacrônico em pleno mundo pós-moderno.
Compre um também.
Recomendo.
(sobre o título, infelizmente o chevete não é da Ford)




GEOGRAFIA

Nossa vida no Acre.
Todos os estados do Brasil se fizeram numa relação de dependência de suas cidades frente às capitais, e o motivo é simples. Os rios correm para as capitais e se um rio não chega lá, pelo menos uma grande rodovia ou ferrovia ou outra via qualquer chega lá, sim, como um dreno que suga as pessoas para onde o progresso antes desponta. No Acre não é assim. Sabemos que as cidades da amazônia brasileira têm estreita dependência dos rios, uma vez que estes são, e continuarão sendo, por muito tempo, a grande via de transporte. Pois bem, no Acre os rios correm para a capital do estado ao lado, o Amazonas. É, pois, um estado com seu escoamento perpendicular ao eixo das suas intenções. É um estado que não era para ser . Era para ser Bolívia, mas ficou brasileiro. Chegou tarde na ordem do país e seu desenho é um anexo, um remendo no mapa, sem muito planejamento, um terreno sem frente nem fundos, apenas com entrada e saída por um lado.
O Peru é ao lado com uma grande cidade há apenas duzentos kilometros daqui, porém nenhuma estrada vai até lá, de forma que o acesso ao oceano pacífico seria muito facilitado e imagina você o quanto ambos os países ganhariam com isto. Mas não há estrada, nem rota de via aérea legal, e tudo indica que assim é, por interesse dos proprietários de balsas que abastecem as cidades deste estado com produtos vindos de outras capitais.Ganham muito.
Da minha porta vejo, enquanto escrevo estas palavras, e contemplo o horizonte onde o sol se põe, logo ali, no oceano pacífico, de frente à mim. Estou no Brasil bem de frente ao oceano que não banha o Brasil. Escrevo olhando o Peru, jogando barquinhos de papel no rio Juruá para que cheguem em Manaus e alguém, quiçá, entenda minha escrita.
O Acre é um território esquisito.
E eu também.
Amém.






SENSO-COMUM

Nossa vida no Acre. Caos. Absoluto caos. Não há leis de transito. Não há lei qualquer. Uma turba de gente mecanizada com automóveis, bicicletas, motos, urubus. Os urubus ocupam o centro, já os seres moventes emissores de gases do efeito estufa estão em toda a parte. Nas ruas há três mãos. A que vem, aquela que vai e a sei-lá-entende.Por sinal, a massa condutora prefere a sei-lá-entende.Uma maravilha.
Minha mulher é de QI mediano assim como eu, bem mediano, por isto nos casamos e nos toleramos; no entanto, ela, sem estudar, acertou quase a totalidade das questões teóricas sobre direção segura para renovar a carteira de motorista. Usou apenas o bom-senso e pimba. Foi aprovada com louvor! A maioria restante fez este exame com cursinho preparatório e reprovou. Portanto concluo uma trágica evidência: os novos pretendentes à motorista não têm bom-senso. Feito isto, somado à rua de três vias e a falta de respeito a qualquer lei de trânsito, temos o caos, absoluto caos. Selvageria.
O mais interessante é que você ao longo do tempo vai sendo vencido e começa a se tornar um deles, sem bom-senso .Mas o bem-bom é que você evolui e começa a não esquentar sua cabeça com estas coisas e passa a entrar nas estatísticas, senão, de outra maneira, se transformaria como este texto e ficaria todo em três vias.
Uma que vem , outra que vai e finaliza no sei-lá-entende.
Relaxa baby ,relaxa.
(Sai da frente, caralho!)




TARDE

Nossa vida no acre.
Só o Acre coube na medida que o meu pé delicado tem. Calcei. Agora quero usar até que o couro esgarce e fique poído. Por alguns anos, pelo menos. Foi difícil achar algo assim.Do que falo? Ora, pois é simples. Depois que lutei nas guerras do norte e sobrevivi nas trincheiras sinto que é hora de um pouco de comunismo. Não. Não o modelo ou seita daqueles tarados de Cuba, ou da China, ou do Lênin, ou do Chaves ,ou do Morales, ou do caralho-a-quatro, como o PT. Não, nada disto. Comunismo, derivado da palavra comum. Bem comum mesmo. Paraguaio, bagaceira, latino. Diluído na imensidão.
Hoje recebi a notícia que a nossa maior luta declarada como derrota de outrora, agora vingou, como a mágica redentora de um dia-após-o-outro. Nossos inimigos de antes se envenenaram e morreram, sozinhos, por conta e risco.Ruíram. Desta forma um dos reis desta nação revogou seu veredicto e ,exausto, pediu que nossas tropas retomem os postos.
Saudei meus colegas de luta.Um abraço à todos. Parabéns. Mas não quero mais.
Parei de acreditar. Agora eu quero roubar, sonegar e mandar meus filhos para a França.
Quero ficar no Acre uns tempos, esquecendo tudo. Aqui, bem pertinho do Peru, virando bolor. Será que eu vou morrer de dor?
Boa sorte irmãos. Sigam, bem comuns. Atentos.
Já é tarde para mim.
Beijos.



ENIGMA


A nossa vida no Acre.
Evolua, por favor, evolua. Se não evoluíres, serás extinto como os dinossauros. Grande ditado. Siga em frente, não pare. Assim formamos as ciências e ofícios e a ladainha da sociedade inteira, no ocidente. E vai adiante o santo, dando um premio àqueles que seguem na frente a romaria dos homens evoluídos com o candeeiro e o cetro. Pois bem. Sacou, né?
Eu não evoluí.Me fodi, porra! Fiquei pra traz com a cachorrada toda, aos chutes e latidos.
Como assim? Vamos lá...te explico, calma.
Sou um dejeto da cantilena médica de um país de terceiro mundo. Não tenho mestrado, nem doutorado ,muito menos pós-doutorado, é óbvio, nem especialidade, nem faço tratamentos inovadores, nem conheço quem faça, mas fazem, e eu não faço, nem uso terno, nem uso gravata, nem tenho cabelo penteado, muito menos sapato fino, nem sou distante, nem me aparto, nem sou desejado e nem me querem muito.
Viu só? Fodidaço, doutor! Um merdão.
Mas vou te dizer o que sou. Sou um mestre-especialista em miséria.
Poucos são, muito poucos são. Aliás, somos a nata que a Sorbonne nem sonhou ter.
Ontem recebi um paciente que remou quatro dias para chegar até o atendimento que eu prestei. E ele estava com a perna podre, benzida por uma serpente sorrateira, mais honesta que todos nós somos. Mas ele remou. E perdeu o pé. E eu não fui capaz de fazer mágica. Perdeu ele , perdi eu. Ganhou a nação que não sabe nada disto e segue a ladainha do candeeiro e o cetro lá de cima. Mas e o enigma do título? Qual enigma é este?
É o enigma do que direi para os meus filhos.
O enigma do que realmente vale a pena.
O enigma de chegarmos aos oitenta anos.
Pense. Pense doutor, pense.
(Vá à merda!)





CELULITE

Nossa vida no Acre.
Veja só. Uma pequena porção de tecido vivo, redondo, se encontra com outra célula redonda, e puuf...viram uma unidade maior, redonda. Depois mais outra redondinha, com outra esferóide e mais outras tantas bolotinhas minúsculas, e pim...uma bolotona!
Assim é o meu tecido celular sub-cutaneo, fazendo a celulite.
Com tanta cerveja entorpecente, bandida. Celulite pura e legítima.O que me deixa puto é que escrevem tanto livro de auto-ajuda e Paulos Coelhos, que ninguém dedica tempo maior à seqüência de efeitos das bolotinhas como eu fiz.
As mulheres iam amar... ou não.
Aqui no acre, dá.
Aqui estou sendo fagocitado .
Estou sendo esquecido
Estou virando jibóia.
Dá licença?
(Beijos)



ESCRITOR


Nossa vida no Acre.
Por seis meses no ano, por aqui, chove pencas de água do céu, à ponto de tudo virar um inferno. As estradas fecham e apenas se entra e sai com barco ou avião. Pense agora um moranguinho ou uma alface fazendo isto. O preço que isto tem. Vindo tudo de avião, senão, de outra forma, estes vegetais chegariam mumificados. Sim ,um morango vindo sentado na janela...ou corredor, comendo barrinha de cereal. Pague por isto.Pense. Nesta época do ano um repolho custa mais que um kilo de filé mignon, e não estou inventando, não.
Os mercados vendem produtos que já venceram seu prazo de validade há tempos, tudo bolorado. Olhe bem a data no fundo do pote ou na tampa.
Mas a água do céu continua escorrendo divina e prolífica, aos borbotões. E a chuva segue inclemente sem parar fazendo o rio Juruá subir muito acima de seu normal. E já fazem seis meses que não para de chover e o bolor vai subindo pelas paredes, cobrindo as massas, as bolachas, a seção de produtos de limpeza, vai pegando os ratos que tentam fugir, as borboletas amarelas que já não voam mais e no fundo do corredor da padaria inundada vejo chegando ele, com sua cabeça branca, acima do peso, já velho mas inconfundível. Garcia Marques sorrindo. Estende a mão e me diz: bom dia e aprecie a cena! E segue adiante abanando para as pessoas, todas elas sem saber quem é ele, com água pelas canelas. Então percebo o sinal. Também eu era inconsciente.Estou em Macondo. Vivo no absurdo.
Estou mergulhando em cem anos de solidão.
(preciso me cuidar)





NOUVEAU

Nossa vida no Acre.
Ontem ,para sacudir um pouco o status quo, postulei um outro sentido para se estar aqui.
Surge no Brasil uma forma nova de se ganhar a vida. A vida de médicos itinerantes. Sim. Pegue a velha fórmula de nossos pais estabelecendo um lugar para criar raízes, firmar o nome, ganhar clientela e jogue fora. Não há mais. Foi-se o tempo de cinema com Mazzaropi, Johny Weissmuller, vila sézamo, Sonia Braga pelada, calça de brim-coringa e breck-mirabel. Foi-se, meu filho. Isto aqui é século 21, sacou? Wake up!
Pois bem, somos, inconscientemente, a nova raíz do futuro.O que vem por aí.À galope.
Trabalha-se hoje aqui, gastasse o dinheiro acolá e para cá vem os de outras bandas e os destas bandas vão achar um nicho temporário mais adiante. Não se desespere. Há muitos lugares para ir. Basta querer. Somos um batalhão desajustado. Especialistas em horrores. Fazemos o que poucos sabem fazer. Miséria, meu querido. Somos doutores de misérias.
E o Brasil é generoso em prover.
Te espero.
Um beijo.
(chore, não)



FOLLIE-AUX-DEUX

Nossa vida no Acre.
O sol do meio dia é inclemente. Às quatro da tarde, também.O lençol quente da atmosfera que flutua sobre as ruas não ascende ao céu pois sobre ele há mais calor e por sobre, mais calor ainda.O verão acreano se extende por seis meses e ao contrario dos meses chuvosos, não permite uma gota sequer que venha do céu. Os rios desabam em suas margens e a frondosa floresta verde agoniza seu viço. Dizem que antes não era assim. Agora,porém ,tornou-se goiano ou mineiro.Mas algo me chama a atenção, destoando disto tudo.
Uma vaca solitária, amarrada, foi largada ao lado do passeio público para que depois alguém a busque, se muito, ou talvez porque ali tem algum pasto na margem da rodovia.
O animal agoniza no inferno do sol perpendicular sobre sua sombra. Quer beber água, quer sair, quer mais espaço, não quer estar ali. Com as patas extendidas, em riste, puxa contra a tensão da corda que a segura e fixa no lugar. Luta contra. Quer sombra. Não tem.E puxa e puxa e puxa a corda. Sofre o animal. Ninguém se importa. Nesta batalha com o cizal se desvia para o meio da rua. Os carros são insanos. Os motoristas são insanos. Os urubus aguardam. Mais outro carro desvia. Então, me identifico. Eu sou esta vaca. Eu sou louco. Louco por espaço. Puxo a soga que me incomoda, tensiono o fio. Quero água. Não tem. Quero sair. Não posso. Sou louco. Minha baba escorre pegajosa, o chão está oscilando, as imagens têm um brilho de espelho rente ao chão. Minhas narinas se dilatam, batem, ofegam.Os cascos quebram contra a pedra. Sangro, e muito sangro. Giro a cabeça para as aspas se livrarem da linha que aprisiona.Uma vaca. Eu sou a vaca-louca. Sou agônico. Sou profano. Outro carro corta o asfalto, tirando um fininho. Estou nem aí. Minha luta é com a corda. Fodam-se os carros. Que incomodo, que calor, que horror, meu Deus. Os urubus estão me olhando.Os urubus.Os urubus estão me olhando É o fim, é o fim.
Eu sou a va...
(dedicado a Reinaldo Moraes, pela cópia).




D.M.T.

Nossa vida no Acre.
Como eu cheguei primeiro para fazer o terreno e então os meus virem depois, fiquei cinco meses com uma vida de solteiro. Desta forma as horas pesam muito e é preciso preencher o tempo e a solidão. Voltei a ter uma certa vida social mais ativa, misturada, menos sociopata e agorafóbico como eu costumo ser.
Assim estávamos num domingo à tarde, juntos, eu , Gabiru e a pintora quando Elvis chegou. Foi logo mostrando o ouro que trouxera.Duzentos mililitros do chá poderoso da seita dos amalucados. Sim, apenas duzentos mililitros. Porém, o suficiente.
Elvis era mais experiente no assunto e nos passou os primeiros passos sobre o que sucederia. Primeiro uma dormência, depois algum tremor e por fim sentiríamos que as cores e os sons tornariam-se mais evidentes. Que deixássemos isto acontecer, sem medo. Talvez alguma imagem ruim ou animais ameaçadores pudessem aparecer e ,caso assim pintasse, que abrisse os olhos e buscasse a razão lembrando que tudo seria apenas uma alucinação. Mas no final de quatro horas tudo seria apenas um sonho ou uma experiência engrandecedora, pois coisas boas, espirituais, sei lá, entende, poderiam valer o esforço, afinal é um chá religioso de uma seita que mete até o Jesus Cristo no meio. Sim, pasme, mas é verdade, tem sede no Japão, no Peru, na Etiópia .E é séria, dizem também.Eu duvido, é só desculpa.Há doido para tudo, eu inclusive.
Um pouco em cada copo e cada um bebeu o seu . Gosto estranho, pavoroso. Parecia dipirona. Meia hora se passou e apareceu o tremor e as luzes e os sons começaram a se misturar e foi que então tudo começou. Um caminho sem volta.Acelera aí...pense!

“”Os olhos se fecharam e as luzes invadiram minha imaginação, eu estando só e banhado num universo de cores brilhantes, flutuando no espaço, numa forma de caleidoscópio, no qual os vultos das sombras passaram a ter luz e eu era luz também mas de repente percebo que nada disto era alegria ,era apenas a física que estimulou meus bastonetes e cones, fundo na retina, que meu córtex cerebral guardou como memória ao longo das horas, dos dias, dos anos, cores da minha infância, cores vivas, cores mortas.Não há geometria, tudo é curvo, nada é mágico. É apenas o meu ser pensando, coletando, acumulando, inventando, refazendo o sentido das coisas, querendo Deus, querendo sexo, comida, rock`n`roll, querendo o Diabo, e apenas percebo então que minha solidão é a solidão de todos os homens e na minha vida os outros seres que sobraram estão aqui e são pobres, miseráveis, sem sucesso, sem ar condicionado. Sinto os meus pés na lama. Não verei outra vez Paris, nem o Cairo, nem sentirei os cheiros de hotéis ricos e finos. Dormirei para sempre com tudo que o mundo rejeita, e não quer. A dor, os desdentados, as tetas caídas, as ruas esburacadas,os urubus, o lixo, o Brasil que ninguém admite, Brasil que todos negam, e nem sabem o quanto existe. É Brasil, caralho! Todo iluminado, que nem eu, com velas, lamparinas, queimadas, Itaipu, tiros. As palafitas, as malárias, as feridas,os esquecidos, os violentos, os descrentes, as cachaças e gira ,e gira, e gira, num grande liquidificador que tudo mói e nos mistura todos num suco deselegante que deságua neste rio imundo e que, agora se transforma numa grande onda arrancando meus últimos suspiros. Que pega de banda, de lado. E que me afoga. E que me afunda no horror. E que agonizo. E... ponto!””

Passaram-se quatro horas.
Silêncio.
Tudo acabou, sem ter uma dor de cabeça ou ressaca mínima, sequer.
Di-metil-triptofano, Daime, Ayuhasca, Caapy, tanto faz o nome.Vão todos à merda.
Não me interessa, nem é isto o que eu procuro, de outra forma teria a minha religião.
Eu apenas vivi isto. Foi assim, foi bem assim.
Só me desespero um pouco em saber que nem tudo era só alucinação.
Uma dose só, basta.
(te amo, Brasil...apenas tu sobrou para mim!)


HARD

Nossa vida no Acre.
Ë tido como verídico que o termo “vira-latas”surgiu numa viagem de Fernão Garanhão ao Grão-Pará em idos do século 17. A grande travessia da nave portuguesa custou inúmeras visitas à lata de dejetos. Dejetos-reais, dejetos-marinheiros e dejetos-escravos. Reais nem tanto, mas dizem. Pois bem, Fernão mirou seu fio-fó luso no centro da lata e por ali deixou inúmeros fernandos que acabaram jogados ao longo do atlântico. Seriam mais, porém a preguiça se juntou com a burrice e a lata dos reais ficou por algum tempo à deriva no meio do convés. Tento conceber onde andava a lata dos marinheiros, já a lata dos escravos é inconcebível. Pois bem. Fernando também cagou no mar.
O colon é tido cientificamente como o nosso órgão sociável, pois lhe digo que através dele podemos reter dejetos sólidos , líquidos ou gasosos. Um depósito, por assim dizer (vide tratado de colo-proctologia de Hélio Fragosa, lá de Minas, edição de 1998).
Às vezes Fernando nem imaginava onde andava sua lata real mas a constrição voluntária e involuntaria, fez seu colon reter por inúmeras ocasiões os torpedos lusos, até que algum marinheiro ou escravo soubesse por onde se perdia a lata crostosa do navegador.
Sentiu o clima, né? Fernando e sua lata.
Na real, Fernando era um cagão.
Mas havia na maravilhosa nave um cino-vivente, um cão, um cusco para os menos refinados, que cheirava tudo quanto era coisa horrível. Cheirava as meias, as cuecas, os carpins, os queijos, as calcinhas (sim, Fernando tinha uma escrava), as raízes vencidas, os arenques...e a lata da cagança, tenebrosa, por sinal.
Não preciso dizer o que aconteceu, apenas resumo que o cãozinho cheirador ficou flutuando entre a Costa do Marfim e Salvador, depois que os resíduos lusos escorreram do alicerce superior até o mais inferior patamar da grande embarcação que ajudou a povoar o digníssimo e régio Brasil.
Assim o termo e espécime “”vira-latas”” é amaldiçoado das classes mais altas até às classes X, Y e Z do estrato social brasileiro.
Mas pasmem. O cino-cão, vivo, jogado ao mar, agüentou tempestades, comeu insetos-marítimos, bebeu água da chuva, dormiu nas ondas, baixou seu metabolismo, venceu tubarões e chegou no Brasil e encontrou inúmeras cadelinhas, vira-latinhas como ele.
Dizem que agüenta tudo e não duvido.
Viu só. Agora me defini, sem querer.
Sou vira-latas também.
Cheiro tudo por aí. Adoro calcinhas. Mas vivo e sobrevivo até nas piores tempestades.
(pequena crônica dedicada ao Filé, meu vira-latas de estimação)



Oscar Soares, é Médico Cirurgião Especialista na vida humana